Para venezuelanos, inflação e falta de comida pesam mais que temor de ataque dos EUA
Mesmo sob a ameaça de intervenção americana, o que domina Caracas é a preocupação com preços, salários corroídos e escassez de alimentos
Crise arrastada. Pichação em rua de Caracas, na Venezuela, diz: 'o povo morre de fome', em 2018. — Foto: Federico Parra/AFP
Mesmo com a escalada de tensão entre os Estados Unidos e a Venezuela, marcada pela classificação dos americanos na segunda-feira do Cartel de los Soles — suposto cartel do narcotráfico que Washington afirma ser liderado pelo presidente Nicolás Maduro e por altos dirigentes chavistas — como organização terrorista estrangeira, a maior preocupação dos venezuelanos ainda é outra.
Em bairros populares de Caracas, o temor dominante não é o de mísseis ou frotas navais dos EUA, mas o de atravessar mais um dia com comida suficiente em casa — algo cada vez mais difícil em meio ao avanço da inflação e à perda constante do poder de compra.
No mercado de Quinta Crespo, área central da capital, vendedores caminham entre bancas sem movimento enquanto clientes comparam preços antes de decidir se levam ou não algum alimento. Ali, a crise geopolítica não ocupa o centro das conversas. A disparada do dólar, sim.
— Não vai haver intervenção, nada disso. O que realmente nos preocupa é a alta do dólar — disse à BBC o vendedor Alejandro Orellano, que há cinco anos trabalha no local.
Ele mostra o corredor quase vazio onde frutas e legumes continuam expostos sem compradores:
— Olhe, veja como está vazio — pontua.
A tensão com Washington cresceu nas últimas semanas. Milhares de soldados americanos e recursos militares foram deslocados para o litoral caribenho, e ao menos quatro companhias internacionais suspenderam voos para a Venezuela após um alerta dos EUA sobre aumento da atividade militar na região. A movimentação coincide com uma série de ataques aéreos americanos contra embarcações suspeitas de tráfico de drogas no Caribe e no Pacífico, em ações que já deixaram mais de 80 mortos.
Maduro alega que a retórica de combate às drogas esconde a intenção de removê-lo do poder — acusação que o governo do presidente Donald Trump nega.
No entanto, para boa parte da população, o embate diplomático não encontra espaço diante de dificuldades mais concretas. O bolívar, moeda local, deve terminar o ano com desvalorização próxima de 80%, segundo projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI), e o salário mínimo já não cobre sequer uma pequena fração da cesta básica. Um quilo de frango, por exemplo, custa cerca de quatro vezes esse valor, e mesmo os bônus distribuídos pelo governo a aposentados e funcionários públicos não compensam a corrosão diária dos preços.
A professora universitária aposentada Consuelo, de 74 anos, ainda trabalha para complementar a renda. À BBC, ela disse não temer uma intervenção militar, mas sim a deterioração contínua do custo de vida.
— Que aconteça o que tiver que acontecer! E pronto! As emoções também podem afetar sua saúde — afirmou.
Sobre a possibilidade de estocar alimentos, é categórica:
— Não fiz nenhuma compra por pânico; você precisa de muito dinheiro para fazer isso.
A incerteza econômica é aprofundada por um clima político repressivo. Economistas consultados pela BBC afirmaram, sob condição de anonimato, que a inflação mensal já ronda 20%. O FMI prevê alta de 548% neste ano, podendo chegar a 629% em 2026, a maior da América Latina. Após as eleições de 2024, contestadas pela oposição e rejeitadas amplamente por países que reconhecem o opositor Edmundo González como vencedor, mais de 2 mil pessoas foram presas, segundo dados oficiais. De acordo com a ONG Foro Penal, 884 permanecem detidas por motivos políticos.
Esperança em novo regime
O ambiente de vigilância e autocensura se estende por várias regiões do país. Em Ciudad Bolívar, no sudeste, um comerciante relatou à BBC que evita manifestações públicas de opinião, temendo ser denunciado. Segundo a mesma fonte, há quem veja a pressão internacional como um possível caminho para a mudança de regime, mas isso não é dito fora de ambientes privados.
— Há esperança, fé, mas as pessoas estão quietas por medo. Você não ouve ninguém falando sobre isso; fica restrito a casa, com a família, mas há um toque de alegria — revelou. — Estamos com medo, em silêncio. Não sei quem pode me denunciar.
Miséria e temor
Em Caracas, vendedores ambulantes disputam a atenção de pedestres, enquanto famílias tentam equilibrar o orçamento para garantir ao menos alguns produtos essenciais. A confeiteira Barbara Marrero, de 40 anos, descreve um desgaste acumulado ao longo de anos de recessão, hiperinflação e deterioração dos serviços públicos.
— Vivemos em absoluta miséria há anos. Os venezuelanos vivem dia após dia esperando que algo aconteça — disse ela à BBC.
Outros temem que um eventual confronto armado apenas agrave a situação humanitária. Funcionária de laboratório médico, Esther Guevara, 53 anos, afirma estar apreensiva diante do envio de navios americanos para a região.
— Eles podem invadir, atacar… muitas pessoas inocentes podem morrer.
Ainda que a ameaça de conflito esteja longe de ser consenso entre analistas, ela reverbera no imaginário de parte da população, mesmo sem ocupar o topo das preocupações diárias. Javier Jaramillo, 57 anos, que buscava mercadorias para revenda de Natal, acompanha as notícias sobre a movimentação militar americana, mas acredita que prevalecerá uma saída negociada.
— Não acho que esse ataque vai acontecer. Acho que pode haver diálogo, um acordo ou um pacto.
Ele admite, no entanto, que o clima tenso se infiltra nas pequenas rotinas, em especial durante os frequentes apagões.
— Quando falta luz, penso: ‘Eles chegaram’, ‘Eles vão chegar’ — disse.
Mas, imediatamente, volta à prioridade que compartilha com milhões de venezuelanos:
— Estamos mais preocupados com a comida. A inflação está nos consumindo.