ESPECIAL: Os riscos para Roraima em uma eventual guerra entre EUA e Venezuela

João Alfredo Lopes Nyegray*
04/12/2025 09h15 - Atualizado há 3 meses

ESPECIAL: Os riscos para Roraima em uma eventual guerra entre EUA e Venezuela
Fila de migrantes na fronteira de Roraima com a Venezuela. O impacto será maior se houver guerra com os EUA.

As últimas semanas foram marcadas por uma escalada sem precedentes entre Estados Unidos e Venezuela, com declarações explícitas do presidente Donald Trump orientando companhias aéreas a considerarem o espaço aéreo venezuelano “totalmente fechado”, planos de bombardeio já prontos no Pentágono e movimentações militares de grande envergadura no Caribe. A chegada do porta-aviões USS Gerald R. Ford, o maior do mundo, representa a maior presença militar norte-americana na América Latina desde a invasão do Panamá em 1989. A Venezuela, por sua vez, respondeu com tentativas de demonstrações de força, exercícios militares com munição real, mobilização de milícias e a visível fortificação da capital Caracas, como se o país já estivesse assumindo que o ataque é apenas uma questão de tempo.

A escalada ocorre em um contexto interno de fragilidade estrutural da Venezuela: economia destruída, hiperinflação crônica, instituições esvaziadas, migração em massa e um governo que depende cada vez mais da coerção militar e da influência russa. Nesse sentido, a possibilidade de um ataque dos EUA não deve ser lida apenas como mais um capítulo das tensões históricas entre Washington e Caracas, mas como o risco real de abertura de um ciclo de instabilidade profunda, talvez comparável ao colapso sírio — com efeitos potencialmente devastadores para a América do Sul.

Desde meados da década de 2010, o país vive uma destruição econômica que, em termos de bem-estar da população, é comparável à devastação causada por guerras civis em outras partes do mundo. Organismos internacionais estimam que mais de 7,7 milhões de venezuelanos deixaram o país desde 2015, algo em torno de um quarto da população total. A economia encolheu em aproximadamente três quartos em uma década, a hiperinflação atingiu patamares de milhões por cento ao ano e a infraestrutura produtiva, especialmente a petrolífera, foi sucateada pela combinação de má gestão, corrupção, sanções e estatização compulsória sob o chavismo.

Não é exagero afirmar que o socialismo bolivariano, tal como implementado por Chávez e aprofundado por Maduro, produziu uma devastação social que, sem tiros e bombas, rivaliza com a de muitos conflitos armados. A comparação com a Síria, embora guardadas as devidas diferenças históricas e regionais, é inevitável pelo simples dado objetivo: o único país do qual saiu mais gente, proporcionalmente, em tão pouco tempo, foi justamente a Síria em plena guerra civil. Em Caracas, não há frentes militares disputando bairros à granada, mas há colapso de serviços básicos, hospitais sem insumos, desabastecimento crônico, queda brutal de renda e um êxodo em massa que reconfigura demograficamente a América do Sul. Nesse sentido, o socialismo chavista mostrou-se tão nefasto quanto uma guerra civil prolongada: destruiu o tecido produtivo, quebrou a moeda, corroeu a confiança nas instituições e expulsou milhões de pessoas em busca de sobrevivência material.

Em tal contexto, países vizinhos como Brasil e Colômbia seriam diretamente impactados. O estado de Roraima, que já absorve fluxos significativos de migrantes venezuelanos, poderia enfrentar uma onda ainda maior de deslocados, desta vez não apenas fugindo da fome e da miséria, mas também de bombardeios, conflitos internos e represálias. A  Amazônia poderia tornar-se corredor de circulação de armas, drogas e combatentes irregulares, complexificando o quadro de segurança regional. A fronteira, hoje já sensível, poderia transformar-se em zona cinzenta, pressionando as Forças Armadas brasileiras e exigindo do país uma postura diplomática e de segurança delicada, equilibrando neutralidade formal, preocupações humanitárias e interesses de estabilidade. Se a intervenção vier, o país poderá experimentar o pior dos dois mundos: primeiro, o socialismo que o arruinou por dentro; depois, a guerra que o dilacerará por fora. E os vizinhos, especialmente o Brasil, terão de lidar com as consequências desse abismo histórico aberto às portas da Amazônia.

É sobre esse terreno já arrasado que se desenha a perspectiva de um ataque norte-americano. As notícias que circulam a partir de fontes militares e analistas indicam que os planos de bombardeio do território venezuelano não são mera hipótese acadêmica: foram elaborados, atualizados e estiveram, em determinados momentos, próximos de serem acionados. O fechamento de fato do espaço aéreo ao redor da Venezuela, as advertências da agência reguladora de aviação dos EUA, as operações antidrogas com poder de fogo desproporcional no Caribe e o deslocamento de meios navais de última geração configuram um quadro operacional que vai muito além de simples pressão diplomática.

Ao mesmo tempo, surgem sinais de que o próprio Maduro acredita na possibilidade concreta de um ataque: a misteriosa viagem de uma aeronave ligada ao regime até a fronteira com o Brasil, em Roraima, gerou especulações sobre uma eventual fuga do ditador, possivelmente buscando asilo em países como Turquia, com os quais mantém relações estreitas. Há ainda a questão dos processos por narcotráfico, corrupção e violações de direitos humanos contra Maduro em tribunais norte-americanos, o que torna politicamente palatável, para Washington, a narrativa de “capturar um criminoso” e não apenas de derrubar um líder estrangeiro.

No campo estritamente militar, grande parte da rede de defesa antiaérea venezuelana pode ser neutralizada com relativa facilidade pela tecnologia norte-americana, especialmente os sistemas mais antigos. Na prática, os Estados Unidos teriam condições de, em pouco tempo, destruir radares e plataformas antiaéreas, impor superioridade aérea total e paralisar as capacidades convencionais venezuelanas.

O risco, contudo, não está apenas no embate direto entre forças regulares. O governo Maduro já acena com uma estratégia de “guerra prolongada”, na qual armas seriam dispersas entre milícias e grupos armados aliados, muitos deles com vínculos históricos com o ELN colombiano e dissidências das FARC. A lógica é transformar qualquer intervenção em um pesadelo de guerrilhas, emboscadas, ataques assimétricos e instabilidade difusa, elevando ao máximo o custo político doméstico para Washington. Mísseis portáteis como o Igla-S, por exemplo, não representam grande ameaça a bombardeiros em grande altitude, mas podem ser devastadores para helicópteros, aviões civis em baixa altura e operações em teatros urbanos ou rurais complexos. A dispersão desse tipo de armamento em um país já infiltrado por economias ilegais e grupos paramilitares é um convite ao caos prolongado.

Do ponto de vista jurídico, a situação coloca em choque a narrativa política dos Estados Unidos com o corpo normativo do Direito Internacional. A Carta da ONU proíbe expressamente o uso da força nas relações internacionais, salvo em legítima defesa diante de ataque armado ou mediante autorização do Conselho de Segurança. No caso venezuelano, não há ataque armado da Venezuela contra os EUA, nem resolução do Conselho de Segurança autorizando o emprego da força. A justificativa norte-americana se apoia, em grande medida, na tese de que a Venezuela atua como “narcoestado” e centro logístico de exportação de drogas que matam cidadãos norte-americanos, mas essa interpretação amplia de modo questionável o conceito de legítima defesa para abarcar ameaças difusas, muitas vezes de natureza criminal e não militar.

A tentativa de enquadrar um bombardeio ou intervenção terrestre na Venezuela como mera extensão de operações antidrogas não encontra respaldo sólido na doutrina clássica do Direito Internacional. Um ataque sem autorização da ONU e sem uma agressão armada prévia configuraria um ato de agressão em violação ao artigo 2(4) da Carta. Ainda que se critique o regime de Maduro por violações massivas de direitos humanos, fraude eleitoral e destruição econômica deliberada, isso não autoriza, pelo direito vigente, um Estado a unilateralmente impor mudança de regime pela força. O precedente iraquiano mostrou, aliás, o custo imenso de operar fora dos marcos multilaterais: o derrubamento de Saddam Hussein sem mandato claro da ONU resultou em anos de guerra civil, ascensão do extremismo jihadista e perda de credibilidade do sistema internacional de segurança coletiva.

Se o ataque se concretizar, a pergunta central deixa de ser se Maduro cairá e passa a ser que tipo de Venezuela surgirá a partir dos escombros. Há, em tese, um cenário idealizado em que uma ofensiva cirúrgica derruba o regime, provoca a adesão de parte das forças armadas a um governo de transição, abre espaço para eleições e permite um processo de reconstrução com apoio internacional. Esse é, porém, o cenário menos provável. Mais realista é imaginar uma combinação de colapso do núcleo duro do regime com fragmentação territorial, milícias controlando bairros e regiões, grupos armados transnacionais se aproveitando do vácuo de poder e uma disputa prolongada por recursos, rotas de tráfico e áreas estratégicas.

*João Alfredo Lopes Nyegray é mestre e doutor em Internacionalização e Estratégia. Especialista em Negócios Internacionais. Advogado, graduado em Relações Internacionais. Professor de Geopolítica, Negócios Internacionais e coordenador do Observatório de Negócios Internacionais da PUCPR; professor de Relações Internacionais e Direito Internacional da FAE Business School. Instagram: @janyegray


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