A organização criminosa Trem de Aragua voltou a ocupar o centro das tensões entre os Estados Unidos e a Venezuela. No início de dezembro, a CIA (Agência Central de Inteligência) realizou um ataque com drones contra uma instalação portuária na costa venezuelana que o governo dos EUA acreditava estar sendo usada pela quadrilha para armazenar drogas, segundo informou a CNN Internacional.
O ataque com drones foi o primeiro conhecido em território venezuelano desde que o governo do presidente dos EUA, Donald Trump, iniciou uma ampla mobilização de ativos militares no Caribe, que inclui ataques a embarcações supostamente envolvidas no transporte de narcóticos, segundo Washington, que não apresentou provas para sustentar essas alegações. Desde 2 de setembro, somam-se 31 barcos destruídos em 27 ataques realizados em águas internacionais.
Autoridades americanas insistem que o objetivo é combater o narcotráfico, mas a chefe de gabinete da Casa Branca de Trump, Susie Wiles, afirmou recentemente, em entrevista à Vanity Fair, que os ataques a embarcações buscavam forçar Nicolás Maduro a “se render”.
Em setembro, Trump afirmou que seu governo realizou um ataque contra uma suposta embarcação do Trem de Aragua que, segundo ele, havia saído da Venezuela transportando drogas. O presidente dos EUA disse que 11 pessoas morreram nessa operação.
Depois que Trump iniciou seu segundo mandato, em 20 de janeiro, o Trem de Aragua tornou-se protagonista de uma controvérsia bilateral em meio à onda de batidas anti-imigração e deportações promovidas pelo governo Trump. Em fevereiro, o grupo criminoso foi classificado pelo Departamento de Estado dos EUA como organização terrorista, e supostos integrantes foram detidos e expulsos do país.
Trata-se de uma organização criminosa transnacional que se originou em uma prisão da Venezuela e que, nos últimos anos, avançou gradualmente para o sul e o norte do continente. Em 2023, uma investigação da CNN Internacional revelou a presença de seus membros nos Estados Unidos.
A Procuradoria-Geral da Venezuela afirmou, em janeiro de 2025, ter desmantelado o Trem de Aragua, mas não foi registrada a prisão de Héctor “El Niño” Guerrero, considerado o líder da organização e cujo paradeiro permanece desconhecido.
O Trem de Aragua é classificado como a maior e mais poderosa organização criminosa da Venezuela, de acordo com relatórios da organização Insight Crime e do governo dos Estados Unidos.
Segundo a Insight Crime, a origem dessa organização criminosa remonta a 2005, quando surgiu a partir de um sindicato de trabalhadores envolvidos na construção de um projeto ferroviário que ligaria os estados de Aragua e Carabobo.
Daí vem o nome “Trem de Aragua”. De acordo com o centro de estudos especializado em crime organizado na América Latina, o sindicato começou cobrando pela distribuição de vagas de trabalho e extorquindo empreiteiros em troca de segurança. Originalmente, o grupo se estabeleceu na prisão de Tocorón, que foi esvaziada pelas autoridades venezuelanas em uma operação militar em setembro de 2023.
Com o tempo, o grupo expandiu suas atividades criminosas. Em 2013, após a prisão de Héctor Rustherford Guerrero Flores, conhecido como “Niño Guerrero”, em Tocorón, o Trem de Aragua passou a se aliar a outras organizações criminosas para ampliar seu domínio. Segundo a Insight Crime e o Observatório Venezuelano da Violência, chegaram a controlar o bairro San Vicente, em Maracay, capital do estado de Aragua.
No processo de expansão, o Trem de Aragua entrou em conflito, desde 2017, com grupos como o Trem del Llano, no estado de Sucre, no leste da Venezuela, por causa do tráfico de drogas para o Caribe, e até com a guerrilha colombiana ELN (Exército de Libertação Nacional), no departamento de Norte de Santander, por crimes como o tráfico de pessoas.
O general reformado Óscar Naranjo, ex-vice-presidente da Colômbia e ex-chefe da Polícia Nacional colombiana, afirmou à CNN Internacional em 2023 que o Trem de Aragua é “a organização criminosa mais disruptiva que atua atualmente na América Latina, um verdadeiro desafio para a região”.
A Insight Crime aponta que o Trem de Aragua tem presença na Colômbia, Equador, Peru, Bolívia e Chile. Já a Transparência Venezuela — braço venezuelano da ONG Transparência Internacional — afirma que o grupo também atua no Brasil e na Costa Rica.
Especialistas afirmam que, por ter ramificações em vários países, o Trem de Aragua se destaca por sua capacidade de adaptação e por explorar a vulnerabilidade de migrantes da América Latina.
Assim como os Estados Unidos, Equador, Peru e Argentina também classificaram o grupo como organização terrorista.
A Transparência Venezuela explica que, no país, a organização atuava na extração ilegal de minerais, no tráfico ilícito de drogas, armas e sucata, na cobrança da chamada “causa” — uma taxa que, ao que tudo indica, cada preso deve pagar dentro das prisões venezuelanas —, além de roubo, sequestro e tráfico de pessoas.
Tanto a Transparência Venezuela quanto a Insight Crime explicam que o crime de tráfico de pessoas impulsionou a expansão do grupo, que passou a seguir os passos de milhões de migrantes venezuelanos para outros países.
Embora a quadrilha tenha se concentrado principalmente no tráfico de pessoas e em crimes contra migrantes, ela também foi associada à extorsão, sequestro, lavagem de dinheiro e tráfico de drogas, segundo o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) do Departamento do Tesouro dos EUA.