EUA x Venezuela: 'Foi-se Maduro e se foi o petróleo'; venezuelanos na fronteira, em Roraima, celebram queda do ditador

Expectativa com captura do ditador não muda fluxo diário de domingo em Pacaraima (RR), segundo relatos. Fronteira está aberta como de costume, e motos usam trajetos alternativos à vista da fiscalização

04/01/2026 17h57 - Atualizado há 2 meses

EUA x Venezuela: 'Foi-se Maduro e se foi o petróleo'; venezuelanos na fronteira, em Roraima, celebram queda
Militares do Exército na fronteira do Brasil com a Venezuela no dia 3 de janeiro de 2026 — Foto: Nalu Cardoso/g1 RR

A fronteira do Brasil com a Venezuela, em Pacaraima (RR), amanheceu aberta e tranquila neste domingo (4). O trânsito de veículos e pessoas não difere de um fim de semana qualquer e mantém fluxo semelhante ao do sábado (3), quando a fronteira chegou a ser fechada após o ataque dos Estados Unidos a Caracas e acaptura do ditador Nicolás Maduro.

Folha conversou com ao menos oito venezuelanos que faziam o caminho de ida e volta na fronteira. Com sorriso no rosto e comemorando a queda de Maduro ou apreensivos, todos levantam os ombros ao serem questionados sobre o que vem pela frente para a Venezuela.

A fronteira de Brasil e Venezuela em Pacaraima (RR) abriu normalmente no dia seguinte à captura do ditador Nicolás Maduro - Guilherme Botacini/Folhapress

Foi-se Maduro e se foi o petróleo, é tudo que sei, afirmou em espanhol uma senhora que não informou o nome, sob risadas da família venezuelana que passava ao lado e retornava a Santa Elena de Uairén, a cidade fronteiriça do país vizinho, após fazer compras diárias, como pães e outros alimentos.

Neste domingo (4), sozinhos ou em família, sem nada nas mãos ou cheios de sacolas, os venezuelanos fazendo o trajeto na fronteira compõem um fluxo majoritariamente de pessoas que circulam entre os dois países para compras e trabalho, como é comum em cidades fronteiriças.

"Em Santa Elena está muito tranquilo, não mudou nada. O que acontece lá [em Caracas, a 1.250 km, e no resto do país] não afeta aqui", afirma Richard, 45, que se dirigia a pé à Venezuela.

EUA x Venezuela

A percepção foi corroborada por todos os venezuelanos, e até brasileiros, que iam ou voltavam. Alguns com crianças de colo, outros com compras pesadas, preferiam não parar para falar detidamente com a reportagem debaixo do sol forte.

"Compramos de tudo aqui, principalmente a carne, é melhor. Às vezes também levamos combustível, que agora está muito caro na Venezuela, e também acaba muito rápido em Santa Elena", afirma Kerlis, que preferiu dar apenas seu primeiro nome.

Sobre a queda de Maduro, ela é menos esperançosa que outros compatriotas. "Outros estão felizes. Nós, que vivemos e sofremos, na Venezuela, não estamos tão felizes porque não sabemos o que vai acontecer. Tem gente que fica feliz sem saber a situação por lá", diz ela, que chegava a Pacaraima para compras.

Segundo relatos de taxistas, militares, agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e venezuelanos no lado brasileiro da fronteira, o fluxo não difere de outros dias de passagens abertas.

O que mudou, segundo Anthony Queiroz, 22, é a fiscalização, embora militares no marco da divisa afirmem que ela está ocorrendo de forma rotineira. Todos os veículos cruzando o marco divisório entre as duas aduanas é parado, e o porta-malas, aberto para conferência dos militares brasileiros e da PRF.

"Parar todos os carros é muito raro, não é comum", diz Queiroz, que trabalha para uma das cooperativas de táxi intermunicipal na rota frequente entre Santa Elena e cidades roraimenses.

A fronteira do Brasil com a Venezuela é porosa. Do lado esquerdo do marco da fronteira e da passagem oficial, olhando pelo lado brasileiro, funciona a base da Operação Acolhida e o 3º Pelotão Especial de Fronteira do Exército.

Do lado direito, no entanto, há uma série de caminhos à vista de qualquer um pela savana, cenário típico do bioma do lavrado, característico do norte roraimense. As chamadas "trochas" têm pouca fiscalização, a despeito de estarem a poucos metros da rota asfaltada, e é usada diariamente por migrantes e por quem quer burlar eventual vistoria.

A população local espera que o fluxo de migrantes e solicitantes de refúgio aumente nesta segunda-feira (5), não necessariamente relacionado ao inédito ataque americano ao regime, que rompeu décadas de não intervenção direta na América Latina. Isso porque a Operação Acolhida fica em alerta nos fins de semana para eventual emergência, mas só retoma os serviços de acolhimento e triagem em dias úteis.


FONTE: Folha de S. Paulo
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