Com a tensão política em Caracas, o governo brasileiro intensificou a fiscalização a imigrantes em Pacaraima, cidade de Roraima que faz fronteira com a Venezuela. Todos os carros que atravessam de um lado para outro são parados e os motoristas precisam apresentar documentos.
A ação é mais rigorosa do que nos dias comuns de movimentação na fronteira, antes da captura do ditador Nicolás Maduro pelo governo de Donald Trump. Apesar da presença mais ostensiva de militares, o Exército reafirma haver estabilidade e um cenário que até agora não demanda reforços.
Nesta segunda-feira, 5, dois blindados multitarefa Guaicuru, com sistema de armas sobre o teto, foram posicionados no marco que simboliza a divisão entre Brasil e Venezuela, no norte de Roraima. Três generais do Exército estiveram no local inspecionando as tropas e a estrutura.
“Como o fluxo (de imigrantes) se manteve estável, não houve a necessidade de reforço. Obviamente, redobramos nossa atenção nesse local, o monitoramento, a presença mais constante da nossa tropa. Temos tropas em Boa Vista em condições de reforçar, se houver necessidade”, afirmou o comandante da 1ª Brigada de Infantaria de Selva, general Angrizani.
O chefe do Comando Militar da Amazônia (CMA), general Luiz Gonzaga Viana Filho, que fica em Manaus (AM), também está na região. O Exército diz que a visita dele é rotineira.
Uma ação da Receita Federal, que também foi intensificada, tem reflexos na chegada de imigrantes e desperta críticas do lado venezuelano. Os auditores passaram a barrar e a apreender carros de estrangeiros residentes no Brasil que têm placas da Venezuela. Uma equipe de Brasília é esperada para reforçar a ação nos próximos dias.
A explicação técnica é a de que viver com a documentação de residente brasileiro e entrar no País com um automóvel registrado no país vizinho configura importação ilegal do veículo. A Receita também tem barrado a entrada de mercadorias que valem mais de 500 dólares.
Essas regras são praxe em situações de imigração e de turismo, mas não eram tão rotineiras em Pacaraima. A reportagem passou mais de uma semana na cidade após a contestada reeleição de Nicolás Maduro, no fim de 2024, e não viu abordagens com o mesmo rigor colocadas em prática pela Receita ou pelo Exército.
A medida tem incomodado venezuelanos que moram e trabalham entre as duas cidades. “Os brasileiros entram sem ser incomodados em Santa Elena. Nós não podemos mais entrar em Pacaraima porque apreendem nossos carros, nossas motos. As pessoas estão com medo de passar. Mas essa cidade depende de nós, compramos as coisas aqui”, disse o venezuelano José Javier Rangel, que trabalha como mototaxista.
Pacaraima é vizinha da cidade venezuelana de Santa Elena de Uairén. A região é guiada pelas peculiaridades das fronteiras “secas” do Brasil. Apesar das diferenças de regime, as pessoas transitam livremente entre ambas para trabalhar ou fazer compras – até o sistema de pagamentos via Pix funciona no lado estrangeiro. E é comum que venezuelanos que sofrem com a crise econômica venham ao Brasil recorrer a benefícios sociais, sem deixar de morar em áreas fronteiriças do país de origem.
Na prática, até antes da escalada da crise, a fiscalização em Pacaraima era discreta e a parada em postos não era compulsória. Agora, há equipes do Exército, da Receita, da Força Nacional e das polícias estaduais de Roraima fazendo abordagens. Até notas fiscais de produtos estão sendo solicitadas, o que era raro.
A fiscalização sobre carros e motos acabou por criar um bolsão de estacionamento no lado venezuelano da fronteira. Imigrantes chegam até o local com algum serviço de transporte ou carona e terminam a pé a travessia de cerca de 1 quilômetro sob o sol forte até Pacaraima. Antes, os veículos deixavam os viajantes ao lado do local onde podem solicitar os serviços da Operação Acolhida.