'Modo de sobrevivência': Sociedade está em compasso de espera e oposição, perdida, na Venezuela pós Maduro

02/02/2026 11h21 - Atualizado há 1 mês

'Modo de sobrevivência': Sociedade está em compasso de espera e oposição, perdida, na Venezuela pós Maduro
Pessoas exibem retratos de presos políticos durante uma manifestação de familiares em Caracas. Foto: Juan Barreto / AFP

Entre fevereiro de 1992, quando o então tenente-coronel Hugo Chávez liderou uma primeira e fracassada tentativa de golpe de Estado, e janeiro de 2026, quando os EUA de Donald Trump atacaram a Venezuela e capturaram seu presidente, Nicolás Maduro, os venezuelanos viveram permanentes sobressaltos provocados por tensões políticas e crises econômicas.

Nos últimos 26 anos, o país foi governado por um regime autoritário, que a partir da onda de protestos de 2014 endureceu a repressão. Esse trágico pano de fundo explica por que, de acordo com pesquisa divulgada recentemente pela revista The Economist, só 13% dos venezuelanos questionam a ação militar dos EUA contra o país, e 80% creem que sua situação econômica e social vai melhorar nos próximos 12 meses.

Nas palavras de um sociólogo venezuelano exilado na Colômbia, desde que Maduro ordenou sua prisão pela TV, em 2017, “os venezuelanos estão em modo de sobrevivência”. O medo ainda é grande, e o sociólogo ouvido pelo GLOBO aceitou falar com a condição de anonimato.

— Está ocorrendo uma nova escalada ofensiva do regime chavista, sobretudo contra familiares de pessoas que, como eu, estão fora do país. Preciso cuidar dos meus — disse ele, um dos milhões de venezuelanos que rumaram para o exílio nos últimos anos.

A afirmação é contestada por membros do governo interino de Delcy Rodríguez, que esta semana enviará ao Parlamento — controlado pelo chavismo — um projeto de lei de anistia. Segundo as fontes oficiais, “pela primeira vez, a intenção de trabalhar na pacificação do país e na convivência política é verdadeira. Todos os presos políticos serão libertados, com exceção dos acusados de delitos como corrupção ou algo não relacionado a atos políticos”.

Há medo e também esperança de um futuro melhor, mesmo que o chavismo continue no poder. Como explica o sociólogo, “é difícil de entender, mas para os que perdemos entes queridos, tivemos familiares torturados e fomos expulsos de nosso país, a ação de Trump trouxe esperança”.

A mesma pesquisa mostrou que 91% dos entrevistados defendem a realização de eleições presidenciais num período máximo de um ano, mas o governo interino ainda não fala sobre isso. O temor ainda é grande na sociedade, frisa o sociólogo, para quem “os venezuelanos aprenderam que a prudência é a melhor maneira de proteger suas vidas”. Ninguém está nas ruas, nem chavistas nem antichavistas.

— Todos sofreram e estão lidando com esse sofrimento em silêncio. Os chavistas estão esperando para ver o que vai acontecer, e os antichavistas celebraram o ataque e a captura de Maduro em silêncio. Todos esperam mudanças, mas existe um profundo esgotamento emocional dos dois lados — explica ele.

‘Transição real’

A libertação de presos políticos nas últimas semanas e a criação da Comissão para a Paz e a Convivência foram iniciativas bem recebidas pela parte da oposição que dialoga com o regime, mas consideradas insuficientes. Segundo a ONG Foro Penal, ainda existem 711 pessoas presas por motivos políticos no país.

A oposição mais radical, liderada por María Corina Machado, exige mudanças muito mais profundas. Em visita esta semana aos EUA, a líder opositora afirmou que “queremos uma transição real, não uma na qual as máfias continuem no poder”. Não há clareza em curto e médio prazo sobre o que ela pede.

— Nossa vida continua, sob um regime autoritário. As pessoas estão caladas porque a repressão continua funcionando — disse a historiadora Margarita López Maya, em um debate virtual organizado pela Fundação Fernando Henrique Cardoso.

Para ela, que está em Caracas, “existe uma cautelosa esperança no futuro”. No mesmo evento, o diplomata americano Ricardo Zúñiga, que foi o número 2 para as Américas no Departamento de Estado durante o governo Joe Biden, afirmou que “hoje a Casa Branca está satisfeita com a situação na Venezuela”.

— Queriam uma operação bem-sucedida, sem tropas em campo. Trump não quer presença americana no território venezuelano, e está trabalhando bem com o regime. Por enquanto, não há mais nada no horizonte — disse Zúñiga.

Nessa incerteza, dormir ainda é difícil para muitos, inclusive para o sociólogo que vive em Bogotá.

— Vivemos numa montanha russa emocional— diz ele.

Vista de fora, a Venezuela pode parecer anestesiada frente a tanta tragédia, mas não está — a luta hoje é silenciosa. Para o sociólogo, a sociedade do país está doente, e adoeceu pelas permanentes subidas e descidas do ânimo social. Pelas permanentes passagens da euforia ao desespero. Na esfera política, a oposição está perdida internamente.

— Os opositores estão em estado de choque, ainda não sabem o que fazer — afirma a jornalista Luz Mely Reyes, diretora do site Efecto Cocuyo, que vive atualmente nos EUA.

Existe, ela detecta, “um cansaço profundo entre os venezuelanos”.

— Estamos todos esgotados. Foram muitas frustrações, e as pessoas não conseguem reagir. Existe medo e uma exaustão nacional.

‘Oposição sem liderança’

Entre os poucos opositores que passaram a integrar a Assembleia Nacional, há divisões. Quase ninguém ousa falar sobre o ataque americano, muito menos sobre o governo interino de Delcy, ex-vice de Maduro. Uma fonte em Caracas afirma que “a oposição ainda não entendeu o novo jogo entre Delcy e Trump”. Esse jogo, assegurou uma fonte oficial, é complexo. “O chavismo sofreu um golpe brutal e, claro, agora deve trabalhar com Trump. Por enquanto, as coisas estão caminhando”, frisou a fonte.

Num Parlamento de 277 cadeiras, a oposição — menos a ala mais radical de María Corina — tem 28 parlamentares.

— A oposição não tem liderança — afirma o jornalista e ex-embaixador Vladimir Villegas.

“E essa fraqueza opositora é muito ruim no momento em que o regime constrói nova etapa de poder”, complementa o venezuelano.

A Venezuela entrou nessa nova etapa cheia de incógnitas, com negociações obscuras de Caracas com os EUA, e uma sociedade ainda em busca de se recuperar da mais recente surra. Para o governo brasileiro, disse uma fonte em Brasília, o regime chavista vive “situação de certa forma constrangedora: um país que tinha um discurso anti-imperialista agora não tem muito como explicar o que está vivendo”.


FONTE: O Globo
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