Mais de 200 presos políticos na Venezuela iniciaram uma greve de fome para exigir liberdade, informaram familiares à AFP neste domingo. Entre eles está o argentino Nahuel Agustín Gallo, acusado por Caracas de “terrorismo”. Segundo parentes dos detidos, a mobilização começou na noite de sexta-feira na prisão de Rodeo I, nos arredores da capital venezuelana. Nem todos os presos, porém, aderiram ao protesto, que ocorre contra o alcance da lei de anistia recém aprovada no país, que exclui casos relacionados a militares acusados de terrorismo.
— Eles tomaram a decisão de entrar em greve de fome na sexta-feira, após os resultados da lei de anistia, da qual a grande maioria não será beneficiada — disse à AFP Shakira Ibarreto, filha de um policial detido em 2024.
A lei, promovida pela presidente interina Delcy Rodríguez — que assumiu o posto após a captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos em janeiro —, foi aprovada no Parlamento na última quinta-feira. Segundo o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, pelo menos 1.557 presos políticos solicitaram a anistia desde então.
Em entrevista coletiva no sábado, ele afirmou que “centenas” já foram liberados, e que os pedidos serão analisados “imediatamente”, com a previsão de que a medida alcance 11 mil detentos. Entre eles está o político Juan Pablo Guanipa, uma das várias vozes da oposição que criticaram a lei por excluir determinados presos.
Washington instou a Venezuela a acelerar a libertação de presos políticos desde que forças americanas capturaram Maduro em uma operação militar em 3 de janeiro. O governo socialista venezuelano sempre negou manter presos políticos, mas, em 8 de janeiro, anunciou que “um número significativo” de detentos seria libertado como gesto de boa vontade.
Grupos de oposição e de direitos humanos afirmam que o governo de Maduro utilizou por anos a detenção de presos políticos para silenciar críticos. Esses grupos também criticaram a nova lei, mencionando que ela não concederia anistia àqueles que pediram intervenção estrangeira armada na Venezuela, disse à BBC o analista Luis Fajardo.
Ao veículo britânico, ele observou que o professor de direito Juan Carlos Apitz, da Universidad Central de Venezuela, declarou à CNN que essa parte da lei de anistia “tem nome e sobrenome, indicando que trata-se do “parágrafo de Maria Corina Machado”, líder da oposição no país. Não está claro se a anistia de fato abrangeria María Corina, que ganhou o Prêmio Nobel da Paz no ano passado.
Fajardo também apontou como controversa a exclusão dos benefícios da anistia de dezenas de militares envolvidos, ao longo dos anos, em rebeliões contra a administração Maduro.
No sábado, Rodríguez disse que as “libertações da Zona Sete de El Helicoide” estavam sendo tratadas primeiro e que os presos na unidade em Caracas seriam libertados “nas próximas horas”. O presidente americano, Donald Trump, afirmou que a unidade, definida por ativistas como o maior centro de tortura da Venezuela, seria fechada após a queda de Maduro.
Maduro aguarda julgamento sob custódia nos Estados Unidos ao lado de sua esposa, Cilia Flores. Ele se declarou inocente das acusações de drogas e armas e afirmou ser um “prisioneiro de guerra”.