Como um encontro do setor de petróleo na Venezuela gerou escassez de tacos de golfe em Caracas

Muitas grandes empresas de petróleo, como ExxonMobil e BP, estão representadas no evento, o que mostra o crescente interesse na indústria de hidrocarbonetos da Venezuela, especialmente diante da situação de crise no Oriente Médio

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Bairro nobre da capital venezuelana onde está localizado o Caracas Country Club.

Dezenas de executivos entraram em campo no exuberante Caracas Country Club para um torneio de golfe na segunda-feira (28), como aquecimento para uma conferência de petróleo e gás com ingressos esgotados que ocorre nesta semana na capital venezuelana. Dias antes, os organizadores do evento estavam em pânico.

“Entramos em contato com todos os clubes e lojas de golfe para encontrar tacos”, disse Alex Moulds, da Global Event Partners, com sede em Londres. “Pegamos alguns conjuntos emprestados e até compramos alguns para garantir que teríamos o suficiente.”

Para os venezuelanos comuns, a corrida dentro da bolha abastada da capital para conseguir tacos de golfe chega a parecer um problema absurdo — eles enfrentaram anos de contração econômica, hiperinflação e sanções que empobreceram o país rico em petróleo. A Venezuela também atualmente se recupera de dois terremotos em junho que mataram milhares de pessoas.

Ainda assim, a conferência está alinhada à promessa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de restaurar a antiga glória da Venezuela sob a esfera de influência americana.

Trump — golfista assíduo e proprietário de vários campos em outros países — estabeleceu a meta de canalizar US$ 100 bilhões para a recuperação da indústria petrolífera venezuelana após forças dos EUA deporem o ex-líder Nicolás Maduro em janeiro. A conferência desta semana é, até agora, a iniciativa de maior visibilidade para avançar esse objetivo.

Cerca de 650 executivos estrangeiros e locais, autoridades do governo e diplomatas estrangeiros devem participar da Venezuela International Oil and Gas Summit a partir de terça-feira (29), e mais de 150 pessoas estão na lista de espera.

A corrida ilustra como a Venezuela vem atraindo a atenção da indústria de hidrocarbonetos num momento em que a guerra restringe a oferta do Oriente Médio.

Entre as empresas representadas no evento estão ExxonMobil, TotalEnergies, BP, Repsol, Siemens e Hunt Oi, além da prestadora de serviços do setor Lindsayca, de Houston, e da empreiteira UCC Holding do Qatar, que participam como parceiras estratégicas.

Também são esperados a ministra do Petróleo da Venezuela, Paula Henao, e o ministro das Relações Exteriores, Félix Plasencia. Delcy Rodríguez, presidente interina da Venezuela apoiada pelos EUA, também poderá discursar aos participantes.

Esse nível de participação aumentou a importância de encontrar os tacos de golfe. Entre os jogadores que precisavam de equipamentos estavam executivos da Cotemar, prestadora mexicana de serviços de petróleo offshore e patrocinadora do torneio.

“Eles precisavam de tudo imediatamente, o que é difícil aqui, porque normalmente as pessoas fazem um fitting dos tacos e depois encomendam modelos específicos”, disse María Fernanda Núñez, diretora da Morsa’s, cujo pai fundou o negócio após ganhar fama consertando tacos como hobby.

“Também foi difícil encontrar pessoas dispostas a emprestar tacos”, disse Núñez. “Pouquíssimos venezuelanos jogam golfe, e este país passou por muita coisa, então existe uma falta de confiança.”

Dinheiro antigo

Caracas tem três grandes clubes privados de golfe, mas nenhum campo público ou resort que normalmente empreste equipamentos. Assim, mesmo com os tacos novos e emprestados da Morsa’s, alguns participantes do torneio provavelmente terão de compartilhar ferros, algo impensável para golfistas experientes.

“Se faltar alguma coisa, vamos tentar pegar emprestado com os profissionais”, disse Henrique Lavie, gerente de golfe do Caracas Country Club. “Estamos fazendo todo o possível para que todos se divirtam.”

Nos fairways verde-esmeralda do imponente Caracas Country Club, a glória nunca desapareceu de fato. Construído há mais de um século no local de antigas plantações de café, com orientação do herdeiro americano e ex-vice-presidente Nelson Rockefeller, o clube é sinônimo da elite tradicional da Venezuela.

Na conferência de petróleo, o público excedente será encaminhado para uma sala adicional no hotel onde ocorre o evento para assistir a uma transmissão ao vivo das discussões. “Vai ficar um pouco apertado”, disse Moulds.

Com ingressos vendidos a US$ 2.950 cada antes de se esgotarem, a corrida reflete um “FOMO enorme”, disse um executivo local que tentou, sem sucesso, conseguir a entrada de um amigo na conferência. Parte da receita será doada para a reconstrução após os dois terremotos devastadores na Venezuela, disse Moulds.

Não está claro se toda essa euforia resultará em grandes investimentos na Venezuela, diante da enorme tarefa de reconstruir a infraestrutura básica de petróleo e restaurar a confiança dos investidores. O país produz cerca de 1,2 milhão de barris de petróleo por dia, ante mais de 3 milhões na década de 1990.

Embora muitas petroleiras tenham assinado acordos preliminares com a estatal Petróleos da Venezuela, poucas assumiram compromissos firmes diante das dúvidas persistentes sobre a conformidade com as regras de sanções dos EUA, passivos ambientais e as condições políticas em Caracas e Washington.

“Por 10 ou 15 anos, a Venezuela não estava acostumada a receber tanta gente de fora para jogar golfe”, disse Diego Alexandre, integrante da comissão de golfe do Caracas Country Club. “As pro shops simplesmente terão de reforçar os estoques. É um bom problema para se ter.”