Eleita deputada federal pelo PSOL no ano passado, Sonia Guajajara também foi candidata a vice-presidente da República, na chapa de Guilherme Boulos, em 2018 (Foto: Leo Otero / Ministério dos Povos Indígenas)
Ao longo dos seis meses de governo, Guajajara tem lidado com disputas corriqueiras com a bancada ruralista. Os parlamentares ligados ao agronegócio já impuseram derrotas ao seu ministério, como a aprovação do Projeto de Lei (PL) 490, na Câmara dos Deputados.
“Além de estabelecer o 5 de outubro de 1988 como a data base para reconhecimento de territórios indígenas, que é o ‘marco temporal’, esse projeto de lei também prevê a transferência da demarcação de terras indígenas do Executivo para o Legislativo”, explica Sonia. “É um retrocesso absurdo”.
Apesar dos obstáculos, a ministra se diz feliz no cargo, por considerar a criação do ministério o início de uma “reparação histórica”.
CONFIRA A ENTREVISTA NA ÍNTEGRA:
Qual é o balanço que a senhora faz até agora da operação no território Yanomami?
São várias frentes de trabalho. Tem a questão da saúde, com contratação de equipes, que garantiu o atendimento emergencial. Também fizemos uma reabilitação nutricional. Em três meses, a gente já conseguiu ver alguma mudança. Instalamos um hospital dentro do território Yanomami para garantir os primeiros atendimentos. A Sesai (Secretaria de Saúde Indígena) continua fazendo essas ações de distribuir alimento.
E retirada dos garimpeiros?
Dados do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis) e da Polícia Federal comprovam que já conseguimos retirar 82% dos garimpeiros. Junho foi um mês que não teve nenhum alerta de novo garimpo. Agora nessa fase final tem uma situação bem mais violenta e perigosa. Tem aquelas pessoas que resistem em sair do território, se escondem, e estão provocando conflitos. No início, quando anunciou que iria começar a retirada, muita gente saiu livremente. Outros saíram com as operações.
Mas agora precisa de uma força de segurança maior. Segundo informações das próprias lideranças, são pessoas ligadas ao narcotráfico e ao crime organizado, que querem ficar ali e realmente estão provocando conflitos de indígenas com indígenas, para fazer de conta que são problemas internos.
Mas na verdade é uma consequência do garimpo ainda. Agora, o Exército entrou também para fazer esse combate e ações de repressão e de apreensão. Estamos acreditando que até o final do ano a gente consiga retirar todos os invasores.
Como foi assumir depois de quatro anos de governo Bolsonaro e dois anos de governo Temer?
É um cenário de terra arrasada. Para além do déficit orçamentário, também tem um déficit de recursos humanos. A Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) hoje tem mais cargos vazios do que cargos ocupados. A Funai trabalha hoje com 1.300 servidores para atender o Brasil todo. São 39 coordenações regionais – algumas delas têm oito pessoas.