PF e MPF investigam ação de facções criminosas em Terra Yanomami, em Roraima.

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A Polícia Federal e o Ministério Público Federal (MPF) estão investigando um esquema de contrabando de armas e drogas com as “digitais” de duas facções criminosas, uma paulista e outra venezuelana, no Rio Uraricoera, em Roraima, na fronteira com a Venezuela. A região é a mesma onde tem ocorrido conflitos armados entre garimpeiros ilegais e indígenas da Terra Yanomami.

A investigação, mantida sob sigilo, começou em outubro de 2020 a partir de uma denúncia de um roubo de 17 quilos de ouro — o quilo do metal é negociado a R$ 350 mil — em um dos garimpos do Rio Uraricoera.

Ao investigar o roubo do ouro, agentes da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (Ficco), coordenada pela PF, chegaram a quatro suspeitos de atuarem no comércio ilegal de armas em Boa Vista. Com eles foram encontrados um fuzil AK-47, capaz de derrubar uma aeronave, e outro colt .556, ambas consideradas armas de guerra, além de cocaína e uma balança de precisão. Os suspeitos disseram que compraram as armas de um garimpeiro venezuelano, não identificado, por R$ 112 mil.

A partir dessa operação, a inteligência da PF passou a monitorar a presença de facções no garimpo. Após o roubo, os garimpeiros relataram um aumento significativo de pessoas armadas no Rio Uraricoera. Homens com pistolas, espingardas, metralhadoras automáticas e até fuzis AR-15 são vistos com frequência em alguns pontos de garimpos.

O MPF sustenta que o tráfico de armas e drogas na região é facilitado por encontrar uma logística aérea e fluvial sofisticada para extração de ouro e para o transporte de “mercadorias”.

— Garimpo na Terra Yanomami é assustador: em meio às aldeias, todos os dias milhares de homens e mulheres chegam em aviões e canoas para trazer armamento, drogas, prostituição, doenças, degradação ambiental e mortes aos Yanomami. O pior dos cenários hoje – e que talvez já esteja se desenhando – seria a instalação do crime organizado nos garimpos ilegais. Aí, além do genocídio silencioso da vida yanomami tal como a conhecemos, fatalmente teremos um cenário aterrorizante para, de novo, assombrar o mundo: dezenas de corpos indígenas chacinados em comunidades como Palimiú – afirma o procurador da República, Allison Marugal.

Lavagem de dinheiro

O MPF de Roraima, lembra Marugal, já entrou com ações na Justiça para desintrusão completa do garimpo, para reativação das bases de proteção etnoambiental (a única que falta reativar é justamente a do Rio Uraricoera) e apuração sobre a responsabilidade da União em não combater efetivamente o garimpo. Os processos foram paralisados por conta da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de pedir ao Ministério da Justiça e à PF um plano de isolamento de invasores, que ainda não se concretizou.

O vice-presidente da Associação Hutukara Yanomami, Dario Kopenawa, afirmou que de três anos para cá os yanomami passaram a observar um aumento expressivo da violência entre os próprios garimpeiros, sempre com menções a brigas de “facção”.

— As informações é que dentro do garimpo ele estavam se matando. Depois fomos perceber que nos últimos três anos muitos foragidos de prisões estavam indo para o garimpo. Eles diziam: “Está chegando a facção”.

Dario falou que por diversas vezes ouviu relatos de indígenas reclamando da quantidade de corpos que têm sido jogados no rio após conflito entre os próprios garimpeiros.

Eles confirmaram que a facção paulista que atua nos presídios de Roraima está presente no garimpo, seja para fazer “segurança” de empresários do garimpo ou de líderes da própria facção, que aproveitam o comércio ilegal de ouro para a lavagem de dinheiro do tráfico de drogas e armas.

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By peronico

Expedito Perônico, jornalista e colunista de política. Este blog cobre os bastidores do poder em Roraima e em Brasília. Já atuei nos principais veículos de comunicação de Roraima.

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