Continuamos todos acéfalos: Quem vai herdar o capital eleitoral deixado por Teresa?

A Coluna de Hoje | Publicada 00h12

Teresa desistiu da candidatura mesmo sabendo das condições favoráveis para se eleger governadora.

A saída de Teresa Surita da corrida sucessória – que tinha uma eleição tecnicamente assegurada – jogou Roraima de volta ao anacronismo. As boas perspectivas que se vislumbravam com Teresa no comando do Governo a partir do próximo ano, sobrestiveram com sua desistência, porque adjudica a gerência do Estado à pessoas desprovidas das qualificações exigíveis para resgatar Roraima do caos.

Com a abdicação de Teresa, a pergunta que se faz é: ‘quem entre os postulantes ao posto de governador será capaz de atrair o eleitorado dela?’. É bem difícil estabelecer quem poderia obter vantagens com a saída de Teresa do páreo em função das candidaturas postas, onde temos dois dirigentes fracassados administrativa e politicamente (Anchieta e Suely), um senador desentoado (Telmário Mota) e um postulante novato, absolutamente neófito em política (Antônio Denariun).

Vivemos a década perdida, aliás 12 anos serão completados em dezembro, quando iniciou-se a desgraça administrativa de Roraima a partir da ascensão do vice em 2017, o neófito José de Anchieta Júnior, que herdou um governo saneado, sem deflúvios, com dinheiro em caixa e absolutamente azeitado.

Anchieta gerou os defeitos iniciais, mais tarde tornados inditosos pela sucessora Suely Campos, que se revelou absolutamente incapaz de tornar possível a realização de um projeto de Governo suscetível e colocar Roraima em rumo possível de gerar benefícios para o povo que acreditou nela. Mas o que se vê nesses quase 4 anos de seu mandato é um Estado em absoluto estado letárgico, acéfalo, que não tem cabeça ou a parte anterior, superior ou principal.

Entre a morte do velho brigadeiro Ottomar Pinto – em dezembro de 2007 – e os dias atuais, Roraima alinhou-se ao tronco familiar dos crustáceos, e virou caranguejo, ou seja, andou para atrás, não apenas no sentido figurado, regrediu na forma, gerando a consequente catástrofe administrativa que se vive atualmente.

Anchieta não soube cuidar da herança recebida do velho brigadeiro. Não atentou-se, muito por falta de agudeza política, para a importância daquele instante. Não teve a devida percepção de enxergar o espolio recebido do mais destacado líder político da história roraimense e nos anos seguintes, inclusive com uma reeleição pelo caminho – em 2010 – apegou-se a um padrão gerencial que se mostrou no final ser absolutamente ineficaz, porque não foi capaz de produzir nem sua eleição ao Senado em 2014.

Entre dezembro de 2007 e abril de 2014 – quando desligou-se do Governo para candidatar-se ao Senado – José de Anchieta não construiu os elementos suficientes que o tornasse líder, herdeiro daquele que o inventou politicamente. E os anos do seu governo foram e são lembrados até hoje como uma catástrofe, um legado de dívidas assombrosas, o caixa vazio, o Estado afundado em problemas estruturais seríssimos, deixou uma herança perversa para a sucessora.

Suely por sua vez, eleita com o apelo dadivoso de que montaria um Governo regressado para o povo, gorou logo no começo. Ao invés de brotar com um projeto de governo – fincado em planejamento, direção, execução e controle total das ações do Estado – ocupou-se, para a sua desgraça, de desdenhar do povo roraimense, anunciando como ato inaugural a formação da equipe gerencial com dezenas de parentes – filhos, irmãos, cunhados, sobrinhos, genros, sogros, noras, parentes em todos os graus – no maior escândalo de nepotismo da história política nacional. Só não nomeou os netos por impedimento legal, pois são todos ainda criancinhas.

A governadora não mostrou inicialmente aos roraimense a situação financeira do Estado que iria governar. Uma auditoria total das contas, por exemplo. E o que faria a partir dali, já que encontrara um Estado engolido por uma dívida impagável, herança do maldito governo do antecessor. E os anos que se seguiram até os dias atuais, dispensa até anotações aqui porque todos em Roraima sabem de ciência própria que o Governo Suely não vingou. Ao contrário, submergiu ainda mais no passivo da gestão anterior.

Anchieta não fez o dever de casa, embora se ache um bom governante – classifica-se isso na psicologia como demência cognitiva, ou seja, quando você se acha o que na verdade não o é –, e construiu um protótipo administrativo inútil, porque de sua gestão não sobrou nada, nem a referência para garantir-lhe mais tarde – agora por exemplo – as condições de se manter em pé como líder político. A sobrevivência política de Anchieta sobrevém exatamente do fracasso da sucessora.

Então voltando à cabeça do texto, surgia com Teresa a perspectiva real de termos um modelo de Governo diligente, executivo, venturoso e esperançoso pela qualidade da atual prefeita como figura pública. Teresa fez de Boa Vista um laboratório de gestão, com referências nacional e internacional. Implantou um arquétipo administrativo austero, inexorável no cuidado com as finanças púbicas. Foi capaz de recompor a face urbanística de Boa Vista até então deformada pela gestão do antecessor.

Boa Vista foi ganhando feições de uma cidade modernista a partir de 2013 quando Teresa retomou o comando do município. Tudo, de tão degradado, teve que ser restaurado. E findado o período de reparos necessários para tirar a cidade das ruínas e dar condições melhores e qualidade de vida à população, Teresa partiu para a execução do que hoje a tonou referência como gestora. Tanto que ganhou a eleição passada com quase 80% dos votos e mantém um índice de aprovação de sua gestão que beira os 90%, o mais elevado entre todos os prefeitos do Brasil.

A prefeita de Boa Vista construiu uma identidade própria. Uma liderança irrefutável, capaz de torná-la inegavelmente a mais proeminente figura política roraimense do momento. Estava resolvida a enfrentar a campanha eleitoral deste ano, disputar o Governo de Roraima – seu grande sonho – abrigada em uma popularidade jamais vista, abraçada pela imensa maioria dos roraimenses que lhe daria certamente o mandato de governadora ainda no 1º turno.

Mas quando tudo parecia crível, verossímil e aguardado por muitos eis que Teresa desiste de se candidatar. A decisão causou abatimento em seus aliados, seguidores e nos eleitores roraimenses, claro, mas como para cada decisão há sempre uma razão, Teresa optou pela justificativa mais digna, segundo ela, para não frustrar os que a escolheram em 2016 para administrar Boa Vista até 2020. “Eu não poderia jamais trair a confiança de meus 121. 148 mil (79,39%) e largar meus princípios pelo meio do caminho. Ser lembrada como aquela que não cumpriu com a palavra”, disse.

Sempre à frente das pesquisas, Teresa era o nome até aqui mais influente, aceitável e de aprovação incontestável para a disputa do governo. Sua desistência embaralha todas as cartas do jogo político e deixa uma avenida de possibilidades aberta para os postulantes que estão na disputa: Denarium (PSL), que encarna o novo na política local, Anchieta (PSDB), que tenta voltar à cena política apesar de ter muita rejeição, Suely (PP) que aparece em todas as sondagens com baixíssimo índice de aprovação, mas tem a máquina administrativa não mão, e o imprevisível Telmário Mota (PTB), que vem como franco atirador mais uma vez nesta campanha.

E ai volta-se ao início da conversa acima: ‘quem desses quatro nomes teria condições de herdar um espólio eleitoral de Teresa?’. Pelo menos nesses primeiros dias do pós-desistência de Teresa, não é possível enxergar nesses nomes postos ai como candidatos, alguém que se credencie e absorver a massa que segue e admira Teresa. Primeiro pela ausência de qualidade política para tal. Depois, mais circunspecto, falta a cada um deles o atributo de entender e codificar o gesto de Teresa. E como a mediocridade pulsa na política roraimense, teve muita gente que foi soltar fogos pela desistência dela – os inermes, certamente – quando deveriam ativar a massa encefálica adormecida e parasitária e buscar meios de cortejar o eleitorado de Teresa.

Por fim será uma escolha abstrusa, penosa mesmo, para o eleitor, claro. Porque não é possível avistar nos aspirantes ao posto de governador alguém com cátedra capaz de soerguer Roraima, amenizar a aflição do povo, sobretudo de quem depende da máquina estatal para viver e sobreviver. Ademais, ademais, a cruz que se oferece será demasiadamente pesada para quem se propõem carregá-la, pelo que se conjectura nos próximos 4 anos. Porque o que Suely está deixando para o sucessor corresponde inegavelmente a um verdadeiro calvário.


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