Garimpeiros ilegais voltam à Terra Yanomami em Roraima menos de um ano depois de terem sido expulsos
Em janeiro de 2023, o governo federal iniciou uma série de grandes operações no território yanomami para expulsar os 20 mil garimpeiros. Segundo a Funai, houve uma redução de 80%. Mas, de acordo com o Ibama, nos últimos 4 meses, a presença deles voltou a crescer.
Garimpo ilegal voltou à atividade na reserva Yanomami em Roraima — Foto: JN
Aviões de garimpeiros sobrevoam a maior reserva indígena do Brasil. O espaço aéreo no território Yanomami está fechado e é monitorado pelas Forças Armadas - a área do tamanho de Portugal tem 30 mil indígenas -; só com autorização de órgãos federais é possível voar no local.
Garimpeiros foram surpreendidos pelo helicóptero do Ibama quando o avião onde estavam decolava de uma pista clandestina. O piloto joga o avião em direção ao helicóptero da fiscalização e consegue fugir. Nesta quinta-feira (7), outro avião caiu na reserva por causa de problemas técnicos. Os bandidos fugiram.
Em janeiro, o governo federal iniciou uma série de grandes operações no território Yanomami para expulsar os 20 mil garimpeiros. Segundo a Funai, houve uma redução de 80%. Mas, de acordo com o Ibama, nos últimos quatro meses, a presença deles voltou a crescer.
Hoje, as operações sofrem com problemas de logística. As Forças Armadas desativaram um ponto de apoio dentro da reserva, que permitia o reabastecimento dos helicópteros de fiscalização.“Depois de maio, as ações fiscalizatórias arrefeceram, perderam a frequência, e atividade foi retornando, principalmente com o suporte logístico aéreo. E, então, essas aeronaves clandestinas continuam voando no território. Elas estão dificultando muito o combate ao garimpo ilegal aqui”, afirma Felipe Finger, fiscal do Ibama.
“É uma grande ação conjunta. A logística de ressuprimento do Ibama e de outros órgãos, aqui dentro, é feita pelas Forças Armadas e, agora, a gente está aguardando eles retomarem esse ressuprimento aqui para a gente intensificar as ações novamente”, diz Felipe Finger.
A volta dos garimpeiros coincide com uma piora na saúde dos yanomamis, que ainda sofrem com a malária e desnutrição. Em um barco, a mãe carrega a filha doente a caminho do Polo de Surucucu. Segundo o Conselho Distrital de Saúde Indígena, a menina está com malária. Em outra imagem, a mulher aparece voltando à aldeia para enterrar a filha, que não resistiu.
Dados do Ministério da Saúde mostram que, de janeiro a outubro de 2023, 215 yanomamis morreram: 90 por causas infecciosas, como pneumonia e malária.
Em maio, as Forças Armadas desmontaram os hospitais de campanha que funcionavam nos polos de Surucucu, dentro da reserva e também na Casa de Saúde Indígena, a Casai, em Boa Vista. Na Casai, uma mulher yanomami contou à equipe do Jornal Nacional que está internada por causa de diarreia e vômitos, e que os indígenas que ficaram na aldeia também estão doentes porque a água do rio está contaminada pelo garimpo.
O líder Yanomami Dario Kopenawa disse que os antigos problemas de falta de atendimento e superlotação voltaram.
O Palácio do Planalto declarou que a Força Nacional de Segurança Pública tem intensificado as atividades na Terra Yanomami e que e o Ministério da Saúde enviou agentes com medicamentos e testes rápidos para realizarem a busca ativa de pacientes de malária.“A minha observação: malária tem cura, desnutrição tem cura, diarreia tem cura, verme tem cura. Então, na Terra Yanomami, o principal vetor com que estamos sofrendo hoje em dia, não tem infraestrutura. O posto de saúde tem de ser abastecido, tem de ser qualidade, tem que ser mais profissionais para fazer tratamento na Terra Yanomami”, diz Dario, vice-presidente da Associação Yanomami Hutukara.