BASTIDORES: Amizade com garimpeiro revela que tipo de delegado da PF foi Ramagem

Por Mirian Leitão (O Globo)
15/12/2025 12h36 - Atualizado há 2 meses

BASTIDORES: Amizade com garimpeiro revela que tipo de delegado da PF foi Ramagem
Foto: reprodução/redes sociais

É espantoso que alguém que tenha sido delegado da Polícia Federal em Roraima seja amigo de garimpeiro. Alexandre Ramagem e Rodrigo Martins Mello, conhecido como Rodrigo Cataratas, são amigos — isso é fato. A relação está registrada nas redes sociais de ambos, e Cataratas já a confirmou publicamente. Estamos falando de um garimpeiro que é pai de Celso Martins de Mello, preso sob suspeita de ter ajudado Ramagem a fugir para os Estados Unidos.

Um policial federal que atua em um estado como Roraima e exerce bem sua função deve se opor aos garimpeiros, já que o garimpo é uma atividade, em geral, exercida ilegalmente e em terras públicas e indígenas. A amizade de Ramagem com alguém ligado diretamente a essa prática levanta, portanto, questionamentos graves sobre sua atuação.

Cataratas, que se apresenta como empresário do garimpo, foi acusado pelo Ministério Público Federal, em janeiro de 2024, de ter ateado fogo a um carro do Ibama. Em 2021, já havia sido acusado de invadir o pátio da Polícia Federal para incendiar um helicóptero, também do instituto. Além disso, é réu em três ações na Justiça Federal por garimpo ilegal em Roraima. Já seu filho, Celso foi preso, em 2022, por suspeita de explorar ouro de forma ilegal na Terra Indígena Yanomami, mas acabou solto poucos dias depois.

Não bastasse, quando foi candidato a deputado federal em 2022 — hoje é pré-candidato ao Senado —, declarou guardar em casa R$ 4,5 milhões em dinheiro vivo. Embora não seja ilegal, trata-se, no mínimo, de algo estranho. Um montante dessa magnitude costuma ser mantido no sistema bancário, onde estaria protegido e rendendo. A guarda de tanto dinheiro em espécie levanta suspeitas sobre a origem e o futuro uso dos recursos. Cataratas declarou ainda um patrimônio de R$ 33,6 milhões, incluindo dez aeronaves e 11 veículos, usados em suas atividades no garimpo. Ele faz parte de movimentos que defendem a legalização dessa atividade.

Enfim, essa pessoa com essa extensa folha corrida que é amiga de Ramagem, isso nós temos certeza. Uma amizade que se forjou quando o deputado, condenado pela trama golpista do 8 de janeiro, foi delegado em Roraima. E isso explica muito do governo Jair Bolsonaro, que foi um governo que se posicionou a favor de atividades ilegais na Amazônia. Não por acaso, o desmatamento e o garimpo cresceram de forma expressiva durante o mandato do ex-presidente.

Cataratas afirma que não é verdade que seu filho tenha ajudado Ramagem na fuga, como mostrou reportagem de Paulo Assad. A ajuda de Celso ao deputado foragido está em investigação. Já a ligação entre ele e Ramagem está plenamente comprovada.

Nesta semana, a Câmara dos Deputados terá de votar a cassação do mandato de Alexandre Ramagem, hoje foragido nos Estados Unidos. O que ocorreu neste fim de semana, com a renúncia de Carla Zambelli, indica, no entanto, que a Câmara pode optar novamente pela disputa política, pelo corporativismo, pelo desrespeito às ordens judiciais, em vez do cumprimento da lei.

Zambelli renunciou para evitar a cassação do mandato, determinada após condenação pelo ministro Alexandre de Moraes. Mas não se trata de uma questão de vontade de Alexandre de Moraes, como querem fazer crer alguns parlamentares. Não há mandonismo, mas o cumprimento de uma regra legal: quem é condenado e cumpre pena em regime fechado não pode exercer mandato parlamentar. Ex-ministro da Justiça, o jurista Miguel Reale Júnior, em entrevista que nos concedeu durante o Conexão, na GloboNews na semana passada, explicou que a perda do mandato é consequência natural da condenação. Ainda assim, a Câmara não cassou o mandato de Zambelli.

Segundo o líder do PL, Sóstenes Cavalcante, a renúncia foi estratégica, pois Alexandre de Moraes “não manda”. Essa postura é completamente inadequada para alguém que ocupa posição de liderança política. A questão não é quem manda, mas o fato de que a lei precisa ser cumprida.

É nesse ponto que estamos. Resta aguardar o que a Câmara decidirá. O mais sensato seria a cassação do mandato de Alexandre Ramagem, condenado e foragido, vivendo em um condomínio de luxo em Miami.


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