Produtores brasileiros estão deixando Roraima pra plantar na Guiana, onde o governo oferece terra por concessão e não cobra imposto

Agricultores que produzem soja e grãos em Roraima estão cruzando a fronteira com a Guiana e encontrando do outro lado o que não conseguem no Brasil

Por
3 Min

Produtores brasileiros estão deixando Roraima pra plantar na Guiana, onde o governo oferece terra por
Produtores de Roraima estão migrando pra Guiana, onde o governo dá terra por concessão e não cobra imposto.

A Guiana, ex-colônia britânica com 800 mil habitantes que faz fronteira com Roraima, se transformou num dos países que mais crescem no mundo depois de descobrir reservas gigantes de petróleo a partir de 2015. Com os petrodólares, o governo guianense está investindo cerca de R$ 5 bilhões na pavimentação de 500 km de rodovia entre Georgetown e Lethem, na fronteira com o Brasil, incluindo cerca de 50 pontes. Um terço já está asfaltado. A obra promete reduzir o transporte de mercadorias de até 21 dias para 48 horas.

Para os produtores brasileiros que cruzaram a fronteira, a diferença é brutal. Na reportagem especial da Band, o agricultor Emílio resume: “Aqui é ser respeitado. O governo vê na gente um parceiro, não põe dificuldade nenhuma.” O governo guianense faz concessão de terras para cultivo, não cobra impostos sobre a produção agrícola e mantém mais de 80% do território preservado.

A safra de grãos sai direto da lavoura pro rio e de lá pro porto, sem precisar de caminhão cruzando centenas de quilômetros de estrada precária. O presidente da Aprosoja de Roraima, Murilo Ferrari, compara: de Boa Vista até Georgetown são 680 km, e de Georgetown até o Canal do Panamá são apenas 4,5 dias de navio, contra 8,5 dias saindo de Manaus e 15 dias saindo de Santos.

Enquanto a Guiana já usa hidrovias pra escoar produção, o Brasil acabou de publicar decreto pra estudar o uso de rios como Tapajós e Araguaia. A diferença de velocidade entre os dois países é o que está empurrando produtores pra fora.

Em fevereiro de 2026, Roraima assinou um Memorando de Entendimentos com o governo guianense e a empresa TriStar, que administra o novo Porto de Georgetown, inaugurado com capacidade pra navios Panamax e calado de 9 metros.

Só no primeiro semestre de 2025, o volume já alcançou US$ 21,7 milhões, quase 60% de todo o ano anterior. Soja, milho, carnes e máquinas são os principais produtos exportados. Fertilizantes lideram as importações.

Roraima produz cerca de 430 mil toneladas de soja por safra em 130 mil hectares, e a tendência é de crescimento. Mas a logística dentro do Brasil continua sendo o gargalo. Hoje, a maior parte da carga desce de balsa pelo rio Branco até Manaus e de lá segue pelo Amazonas.

É caro, lento e vulnerável a secas. A rota pela Guiana encurta o caminho e elimina a dependência dos rios amazônicos.  A Guiana produz 900 mil barris por dia com apenas 800 mil habitantes, a maior produção per capita do mundo, acima de Kuwait, Catar e Emirados Árabes.

Os royalties alimentam um fundo soberano que financia estradas, pontes e portos sem precisar de imposto sobre o agro. O modelo atrai produtores brasileiros que estão cansados de juros altos, insegurança jurídica sobre demarcação de terras e uma burocracia que na fronteira pode travar uma carga de fertilizantes por 15 dias.

Ainda falta uma ponte sobre o rio Tacutu pra completar a integração rodoviária e um tratado que permita caminhões brasileiros rodarem em solo guianense sem transbordo. Mas o ritmo das obras sugere que a Guiana vai resolver a infraestrutura antes do Brasil resolver a burocracia.


FONTE: Click Petróleo e Gás - CPG
Notícias Relacionadas »