Levantamento dos últimos 20 anos mostra episódios em que candidatos apontados na liderança acabaram derrotados; veja casos na disputa pelo Governo e pela Prefeitura de Boa Vista_
Pesquisa eleitoral é fotografia, não resultado de eleição. A frase é conhecida, mas ganha importância quando se olha para o histórico das eleições em Roraima.
Nos últimos 20 anos, levantamentos divulgados na imprensa acertaram diversos resultados no Estado e em Boa Vista. Mas também houve episódios em que as pesquisas feitas próximas da votação erraram não apenas o percentual de votos, mas a própria ordem dos candidatos.
Em pelo menos seis disputas analisadas, a diferença entre pesquisa e urna merece atenção especial: Governo de Roraima em 2010, Governo e Senado em 2014, Governo e Senado em 2018 e Prefeitura de Boa Vista em 2020.
*2010: Anchieta aparecia na frente, mas Neudo terminou em primeiro*
Um dos primeiros exemplos do período ocorreu na eleição para governador de Roraima em 2010.
Na última pesquisa Ibope antes do primeiro turno, divulgada em 2 de outubro, José de Anchieta aparecia com 44% das intenções de voto, contra 40% de Neudo Campos. Considerando apenas os votos válidos, a diferença era ainda maior: 47% para Anchieta contra 42% para Neudo. A margem de erro era de três pontos percentuais.
Nas urnas, entretanto, o resultado foi diferente. Neudo Campos terminou o primeiro turno com 47,62% dos votos válidos, enquanto Anchieta ficou com 45,03%. O candidato que aparecia atrás na pesquisa terminou em primeiro lugar.
A disputa foi tão apertada que os dois avançaram ao segundo turno. E, desta vez, o cenário se inverteu: Anchieta acabou eleito com 50,41%, contra 49,59% de Neudo.
*2014: Pesquisa colocava Chico na liderança, mas Suely venceu o primeiro turno*
Quatro anos depois, outro episódio chamou atenção. Na eleição para governador de Roraima em 2014, pesquisas divulgadas antes da votação apontavam o então governador Chico Rodrigues na liderança.
O resultado das urnas, porém, colocou Suely Campos em primeiro lugar, com 41,48% dos votos válidos, contra 37,62% de Chico Rodrigues. Ângela Portela ficou em terceiro, com 18,03%.
A disputa foi para o segundo turno e, novamente, a fotografia mudou. Na véspera da segunda votação, pesquisa Ibope apontava Suely com 56% dos votos válidos, contra 44% de Chico. Ela acabou eleita com 54,85%, contra 45,15%.
O caso de 2014 mostra que uma pesquisa pode errar a liderança em determinado momento da campanha e, posteriormente, captar corretamente a tendência do segundo turno.
*Senado de 2014: Telmário saiu de uma disputa embolada para uma vitória expressiva*
A eleição para o Senado em 2014 também produziu uma das maiores diferenças entre pesquisas e resultado. A disputa tinha vários candidatos competitivos. Os levantamentos divulgados na época apresentavam diferentes cenários para a liderança.
Na urna, entretanto, Telmário Mota terminou muito à frente dos adversários, com 41,24% dos votos válidos. Luciano Castro ficou com 21,33% e Anchieta, que também aparecia entre os nomes mais competitivos nas pesquisas, terminou com 20,56%.
A diferença é especialmente relevante porque pesquisas não servem apenas para medir percentuais: em uma eleição muito disputada, elas também são utilizadas pela opinião pública para identificar quais candidaturas estariam efetivamente na frente.
O resultado mostrou que a disputa poderia ser muito diferente daquela sugerida pelos levantamentos.
*2018: O caso mais emblemático na disputa pelo Governo de Roraima*
Se existe um episódio que chama atenção na história recente das pesquisas eleitorais em Roraima é a eleição para governador de 2018.
A pesquisa Ibope divulgada em 17 de setembro, realizada entre os dias 13 e 16, colocava o ex-governador José de Anchieta na liderança, com 41%. Antonio Denarium aparecia em segundo, com 29%. Suely Campos tinha 9%; Telmário Mota, 4%; e Fábio Almeida, 2%. A margem de erro era de três pontos percentuais.
A pesquisa, portanto, apresentava uma vantagem de 12 pontos percentuais de Anchieta sobre Denarium. Nas urnas, aconteceu o contrário. Antonio Denarium terminou o primeiro turno em primeiro lugar, com 42,27% dos votos, enquanto Anchieta ficou em segundo, com 38,78%.
A diferença não foi apenas de alguns pontos: houve uma inversão completa da liderança.
E a eleição ainda mostrou outro elemento importante: depois do primeiro turno, os levantamentos passaram a acompanhar melhor a disputa. Denarium acabou vencendo o segundo turno com 53,34% dos votos, contra 46,66% de Anchieta.
O episódio de 2018 é, portanto, um dos exemplos mais claros de que a liderança apresentada por uma pesquisa em determinado momento não pode ser confundida com resultado eleitoral.
*O que esses casos ensinam?*
Os episódios não permitem concluir que pesquisas eleitorais sejam inúteis. Ao contrário: em diversas eleições de Roraima, os levantamentos identificaram corretamente o candidato que terminou vencedor.
O que o histórico mostra é outra coisa: pesquisa eleitoral não é apuração antecipada. Há diferença entre uma pesquisa apontar corretamente uma tendência geral e acertar exatamente o resultado da eleição.
Em uma disputa com liderança consolidada, a pesquisa pode indicar corretamente quem está à frente, mas ainda errar o percentual final. Já em eleições mais competitivas, uma diferença aparentemente pequena entre candidatos pode produzir uma inversão completa na ordem das urnas.
Os casos de 2010, 2014, 2018 e 2020 mostram justamente isso. Pesquisa é fotografia, urna é resultado.