Nove meses após a captura de Maduro pelos EUA, fronteira do Brasil com a Venezuela segue sob vigilância militar

Nove meses após a captura de Maduro pelos EUA, a fronteira de Roraima reúne blindados, operações militares e dados migratórios inesperados. Entenda o que realmente mudou entre janeiro e outubro de 2026.

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Foto: Revista Sociedade Militar

Nove meses após militares dos Estados Unidos capturarem Nicolás Maduro em uma operação realizada em Caracas, em 3 de janeiro de 2026, a fronteira do Brasil com a Venezuela apresenta um cenário diferente daquele que poderia ser esperado após uma intervenção militar no país vizinho.

O Exército Brasileiro intensificou o monitoramento em Pacaraima, blindados permaneceram como parte da estrutura militar organizada anteriormente em Roraima e novas operações de segurança foram realizadas ao longo do ano. Entretanto, a esperada explosão do fluxo migratório não aconteceu nos primeiros dias da crise.

Dados oficiais mostram que a entrada de venezuelanos por Pacaraima caiu mais de 50% no início de janeiro. Em setembro, porém, a Organização das Nações Unidas ainda registrava centenas de pessoas chegando diariamente ao Brasil por municípios fronteiriços de Roraima.

O contraste revela que a captura de Maduro alterou o ambiente político regional, mas não produziu uma transformação imediata e uniforme da situação militar e humanitária na fronteira brasileira.

A militarização preventiva da região começou bem antes da captura de Maduro. Entre dezembro de 2023 e fevereiro de 2024, o Exército Brasileiro reforçou Roraima diante das tensões provocadas pela disputa territorial entre Venezuela e Guiana pela região do Essequibo.

A chamada Operação Roraima envolveu o deslocamento de militares, equipamentos e veículos de combate para ampliar a capacidade de resposta das tropas brasileiras no extremo Norte do país.

Um dos movimentos mais importantes foi a chegada de 28 veículos blindados: 14 Guaicurus, oito Guaranis e seis Cascavéis, transportados para a região no início de 2024.

Os Guaicurus são veículos protegidos utilizados em patrulhamento e reconhecimento. Os Guaranis transportam tropas mecanizadas, enquanto os Cascavéis possuem capacidade de reconhecimento armado e apoio com seu canhão de 90 milímetros.

O reforço ampliou a estrutura militar brasileira em uma região estrategicamente sensível, mas há uma distinção fundamental: esses 28 veículos já estavam documentados em fevereiro de 2024 e não representam, por si só, um novo envio realizado após a operação americana de janeiro de 2026.

Dois dias depois da operação americana em Caracas, oficiais do alto comando do Exército Brasileiro visitaram a região de Pacaraima para acompanhar pessoalmente a situação. Entre eles estavam o general de brigada Roberto Pereira Angrizani, comandante da 1ª Brigada de Infantaria de Selva, e o general Viana Filho, comandante militar da Amazônia.

Na ocasião, Angrizani informou que 129 militares integravam o Pelotão Especial de Fronteira de Pacaraima, enquanto unidades posicionadas em Boa Vista permaneciam disponíveis para eventuais reforços.

A avaliação inicial do Exército foi de que não havia necessidade de ampliar imediatamente o efetivo permanente na localidade. O que mudou foi a intensidade do monitoramento. Patrulhas passaram a ocorrer com maior frequência, inclusive nas chamadas trochas, caminhos informais utilizados para atravessar a linha internacional fora dos pontos oficiais de fiscalização.

Dois blindados Guaicurus também foram posicionados nas proximidades do marco fronteiriço durante a visita dos comandantes.

Naquele mesmo período, jornalistas registraram movimentações de militares venezuelanos e veículos armados do outro lado da fronteira. Apesar da tensão internacional, não houve confronto entre as forças dos dois países.

Migração surpreendeu: entradas de venezuelanos caíram 52% 

De acordo com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, entre 1º e 13 de janeiro de 2026 foram registradas 1.014 entradas de venezuelanos pelo município de Pacaraima.

No mesmo intervalo de 2025, haviam sido contabilizadas 2.121 entradas. Em 2024, foram 2.161. O comportamento contrariou a possibilidade de um aumento repentino da migração após a captura do então presidente venezuelano.

O governo brasileiro havia preparado protocolos de contingência para atender uma eventual demanda extraordinária por abrigamento e assistência humanitária, mas informou, em janeiro, que não foi necessário acioná-los.

Há, entretanto, um detalhe importante: a diminuição do movimento começou antes da intervenção americana. Dados da Organização Internacional para as Migrações citados em reportagem da Folha BV apontaram uma redução de 28% nas entradas entre outubro e dezembro de 2025.

Isso significa que não é possível atribuir exclusivamente à captura de Maduro a queda observada em janeiro. Os números também refletem tendências anteriores e possíveis alterações nas condições econômicas e de circulação entre os dois países.

Em setembro, centenas de pessoas ainda chegavam diariamente ao Brasil

Embora janeiro tenha apresentado uma redução expressiva, os dados posteriores mostram que a pressão migratória não desapareceu.

Em comunicado divulgado no dia 29 de setembro, o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) informou que monitoramentos recentes identificavam entre 400 e 500 pessoas chegando diariamente ao Brasil pelos municípios de Pacaraima e Bonfim, em Roraima, em busca de proteção internacional.

O organismo também alertou que sua operação brasileira havia recebido apenas 22% dos recursos financeiros necessários para 2026 até o final de agosto. Os números revelam a continuidade das necessidades humanitárias na região, mesmo depois das mudanças políticas ocorridas na Venezuela.

Entretanto, os indicadores não são diretamente comparáveis: os dados de janeiro representam entradas de venezuelanos em Pacaraima durante 13 dias; os de setembro são estimativas diárias de chegadas por Pacaraima e Bonfim conjuntamente.

Assim, não existe base suficiente nesses números para afirmar que o fluxo aumentou ou diminuiu em determinada proporção durante os nove meses posteriores à captura de Maduro.

Outubro registra novas operações militares e de segurança na fronteira

Durante outubro, o 10º Grupo de Artilharia de Campanha de Selva participou da Operação Controle, em Pacaraima, apoiando ações contra atividades ilícitas transfronteiriças e contribuindo para a fiscalização da região.

A atividade foi divulgada pelo Comando Militar da Amazônia e mostra a continuidade do emprego operacional de unidades militares brasileiras na fronteira com a Venezuela.

Entretanto, a participação da unidade não significa necessariamente que houve um aumento permanente do contingente. O efetivo mobilizado para essa missão não foi informado publicamente.

Paralelamente, o Governo de Roraima lançou, em 10 de outubro, uma nova etapa da Operação Protetor de Divisas, Fronteiras e Biomas, envolvendo 102 profissionais das forças estaduais de segurança em diversos municípios, incluindo Pacaraima e Bonfim.

Outro episódio ocorreu em 22 de outubro, quando a Força Aérea Brasileira interceptou um helicóptero irregular procedente da Venezuela.

A aeronave entrou no espaço aéreo brasileiro sem matrícula e sem plano de voo, sendo identificada por um A-29 Super Tucano. Posteriormente, um H-60 Black Hawk foi enviado para verificar o local de pouso, aproximadamente 100 quilômetros distante de Boa Vista.

O helicóptero foi encontrado abandonado. O episódio demonstrou a continuidade das operações de vigilância aérea brasileira, mas não estabeleceu qualquer envolvimento das Forças Armadas venezuelanas.

Estados Unidos ampliam cooperação militar com a Guiana e modificam cenário regional

Além das mudanças internas em Roraima, o Brasil acompanha uma transformação no ambiente geopolítico da região.

Depois da captura de Maduro, a Venezuela passou a ser governada interinamente por Delcy Rodríguez. Em março, Washington e Caracas restabeleceram relações diplomáticas, iniciando uma aproximação que contrastou com o enfrentamento militar registrado no começo do ano.

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos ampliaram sua cooperação com a Guiana, país que mantém uma disputa territorial histórica com a Venezuela.

Em 21 de outubro de 2026, representantes dos dois governos assinaram um novo acordo de cooperação militar, prevendo o aprofundamento de atividades conjuntas, incluindo treinamento e interceptação aérea.

Para o Brasil, o desenvolvimento tem importância estratégica porque Roraima está situada entre Venezuela e Guiana, em uma região onde disputas territoriais, operações militares e interesses internacionais se sobrepõem.

O acordo, entretanto, não demonstra a instalação de novas bases americanas junto à fronteira brasileira nem representa uma ameaça militar direta ao Brasil.

Nove meses depois, a fronteira mudou menos nas tropas e mais no cenário de segurança

A primeira é militar: Roraima já possuía uma estrutura reforçada antes da captura de Maduro. Os blindados enviados em 2024, a presença permanente do Exército e a capacidade de deslocar tropas de Boa Vista constituíram a base da resposta brasileira em janeiro de 2026.

A segunda envolve a vigilância. O Exército ampliou patrulhamentos após a operação americana, enquanto diferentes forças continuaram realizando ações de segurança terrestre e aérea durante outubro.

A terceira é humanitária: a queda de 52,2% nas entradas de venezuelanos nos primeiros 13 dias de janeiro contrariou as expectativas de uma migração extraordinária naquele momento, mas os registros de setembro demonstraram que a fronteira continuava recebendo centenas de pessoas diariamente.

A evolução do cenário dependerá da situação interna venezuelana, da continuidade das operações de segurança e da capacidade brasileira de manter a vigilância territorial e o atendimento humanitário.

Por enquanto, os fatos documentados mostram uma fronteira militarmente preparada, permanentemente monitorada e ainda sujeita às consequências de uma crise regional que não terminou com a saída de Maduro do poder.

FONTE: REvista Sociedade Militar