Venezuela: Governo Maduro e oposição oficializam início de negociações para normalização política.

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No mesmo modelo das negociações que reuniram as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o governo de Juan Manuel Santos, representantes da oposição venezuelana e do governo  Nicolás Maduro se sentam nesta sexta-feira, 13, na Cidade do México para uma nova tentativa de negociação. Mas analistas e atores políticos venezuelanos acreditam que as conversas devem levar, no máximo, ao fortalecimento do chavismo.

Na pauta do encontro estão, como demandas chavistas, o fim das sanções internacionais e o fim do embargo ao petróleo por parte dos Estados Unidos. Como demandas da oposição estão a garantia de condições eleitorais, um calendário com data definida para a eleição presidencial e a libertação de políticos presos. A pauta será debatida com a mediação da Noruega e participação de outros países, como Rússia, França e EUA – processo que teve por base os diálogos de Havana para as negociações entre as Farc e a Colômbia. 

“A única coisa que pode acontecer é a tirania de Maduro se consolidar um pouco mais, ganhar mais oxigênio e se estabilizar. Em troca disso, os políticos (da oposição) que estarão lá podem ganhar um pouco mais de espaço, uma prefeitura de alguma região de classe média, por exemplo”, afirma o professor da Universidade Simón Bolívar Erik del Bufalo. 

Venezuela - Nicolás Maduro
Maduro quer suspensão progressiva de sanções Foto: Prensa Miraflores/EFE

Um dos motivos que deixam o professor e outros atores políticos venezuelanos descrentes quanto às conversas é a baixa representatividade da oposição nos diálogos. “Não há nenhum político eleito no grupo da oposição. As pessoas que estão ali tiveram seu mandato vencido há cerca de um ano. O próprio Guaidó está há cerca de oito meses sem cargo público. Além disso, não há alguém com alta popularidade, o que sustenta quem está ali é o reconhecimento de alguns atores externos”, diz Del Bufalo.

Juan Guaidó (Voluntad Popular), o líder opositor que se declarou presidente em 2019 após se tornar o presidente da Assembleia Nacional e recebeu o reconhecimento internacional de cerca de 50 países, entre eles EUA e Brasil, agora busca novas formas de recuperar a confiança dos venezuelanos em seu plano de mudança para o país. Em entrevista ao Estadão em julho deste ano, Guaidó afirmou que os diálogos seriam “uma forma para ter garantias, é um caminho para o governo da Venezuela, exercer soberania e ganhar confiança de investidores, por exemplo”. Procurado, Guaidó não fez novos comentários sobre a negociação que começa nesta sexta.

Do lado opositor estarão na Cidade do México, onde ocorre o encontro mediado, representantes do chamado G4, quatro partidos da fragmentada oposição venezuelana: Ação Democrática, Primero Justicia, Voluntad Popular e Um Novo Tempo. 

Juan Guaidó
O autodeclarado presidente da Venezuela, Juan Guaidó  Foto: Juan Calero / Reuters

“Sabendo que o regime é narcoterrorista e ilegítimo, como a oposição senta e conversa com ele? Por isso não apoiamos isso e tanta gente dentro da Venezuela também não acredita no processo”, diz o ex-tenente venezuelano José Antonio Colina, que vive exilado nos EUA. 

O líder opositor Henrique Capriles (Primero Justicia), ex-governador de Miranda e candidato presidencial derrotado duas vezes, contrariando Guaidó, já afirmou que pretende participar das eleições regionais de 11 de novembro e pede que a população saia para votar. “Não podemos renunciar ao uso desse direito. Vou votar no dia 21 de novembro, é uma decisão que tenho mais do que clara”, disse em coletiva na quarta-feira 11.

Chavismo fortalecido

Enquanto parte da oposição chega representada nas conversas desta sexta, o chavismo chega em um momento de forte crise econômica e precisando do alívio das sanções internacionais, mas com controle político da situação. São oito anos consecutivos de recessão e uma redução de 80% do PIB desde 2014, mas, mesmo assim, Maduro manteve o controle institucional.

“No passado, esses processos de paz apenas beneficiaram o regime e agora não será diferente”, afirma o ex-tenente Colina, acrescentando que uma mudança está longe de acontecer na Venezuela. “Essa tirania não deixa o poder por meio do diálogo, por meio de eleições e, menos ainda, com alguma interferência internacional. Essa tirania acaba com um esquema de forças sustentado desde dentro da Venezuela, com apoio internacional.”

A oposição pede condições para haver uma eleição presidencial livre. O governo defende que toda eleição ocorre sem fraudes, mas a oposição diz não ter condições de participar das votações, já que políticos são perseguidos, presos e impedidos de concorrer. 

“O chavismo não tem nenhuma motivação ou incentivo para fazer eleições livres, já mostrou que nunca realizou. As próprias eleições internas de seu partido (PSUV) foram boicotadas porque muitos candidatos que ganharam não estavam alinhados com o que diz a cúpula do partido”, diz Del Bufalo. 

A analista de temas internacionais venezuelana e ex-embaixadora designada por Guaidó para a Suíça, María Alejandra Aristeguieta, acredita que o papel de convencimento está com a mediadora Noruega. “Penso que o regime não tem incentivos suficientes nem está ameaçado ou em posição de desvantagem para que negocie. Esse exercício caberá a Noruega, no marco de um procedimento de longo prazo.”

Para o Cepaz (Centro de Justiça e Paz), organização que trabalha pela defesa dos valores democráticos e direitos humanos na Venezuela, o diálogo entre oposição e chavismo é bem-vindo desde que não se torne um campo para discussão apenas político-partidária. 

“Esses espaços de conversas precisam estar ligados às necessidades das pessoas e ao sofrimento do povo venezuelano. Não pode se tornar apenas uma discussão política eleitoral. É preciso ter resoluções imediatas para os temas humanitários, da vacinação, dos alimentos e restituição de direitos políticos e civis”, afirma a diretora executiva do Cepaz, Beatriz Borges. 

Informações: Estadão Conteúdos

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By peronico

Expedito Perônico, jornalista e colunista de política. Este blog cobre os bastidores do poder em Roraima e em Brasília. Já atuei nos principais veículos de comunicação de Roraima.

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