Esquema no território Yanomami em Roraima trocou mineração por pó de brita e enviou 129 contêineres de entulho para Ásia ao invés de cassiterita multinacional ameaçou chamar a polícia americana, mas assimilou o golpe para esconder falha de compliance.
Quando os técnicos de um laboratório na Tailândia abriram os lacres de sete contêineres embarcados no Brasil, esperavam encontrar toneladas de mineração de estado de alta pureza. Encontraram entulho.
O "golpe do pó de brita", desvelado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal (MPF), transformou a extração ilegal de cassiterita na Terra Indígena Yanomami em uma fraude internacional de R$ 250 milhões contra a gigante suíça Gerald Metals — que, temendo o desgaste de sua imagem em ter financiado minerais sem licença na Amazônia, preferiu assimilar o prejuízo a ver a história exposta ao mercado.
No Brasil, a engrenagem mantida pelos irmãos Diego e Matheus Possebon contribuiu para canalizar R$ 85,7 milhões lavados em empresas de fachada e irrigar os negócios do cantor Alexandre Pires.
Documentos sigilosos da operação Disco de Ouro identificam Diego como o chefe da organização criminosa, enquanto Matheus — empresário artístico de expressão nacional — funcionava como a ponte entre a extração clandestina do minério e o show business.
Só areia e pó de brita
O esquema, que envolveu o envio de contêineres cheios de areia e pó de brita para a Ásia no lugar de cassiterita, conhecida como “ouro negro”, repatriou dólares por meio de intermediadores de pagamentos e canalizou mais de R$ 30 milhões para o cantor Alexandre Pires e sua produtora, a APN Serviços Ltda. Nesta quarta-feira, a PF fez buscas em endereços ligados aos empresários e ao pagodeiro em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul.
Engenharia do esquema
A engenharia do esquema consistia em reter a mineração extraída ilegalmente, enganar compradores na Ásia enviando contêineres cheios de pó de brita e areia, e repatriar os dólares adiantados em um esquema informal de compensação (dólar-cabo/hawala) que abasteceu o clã Possebon e seus aliados, entre eles as empresas suíça Gerald Metals e americana MLS Berkowitz Investments LLC diante da exportação de 733 toneladas de cassiterita ilegalmente extraída da reserva indígena entre 2021 e 2022.
Roraima no golpe
A investigação da PF e os bastidores de um acordo de colaboração premiada na 4ª Vara Criminal Federal de Roraima revelam como o garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami se conectou a este golpe internacional e irrigou as contas do cantor Alexandre Pires e de seus empresários. As provas e planilhas financeiras apreendidas pela PF apontam que o líder do esquema, Diego Possebon, controlou a distribuição de R$ 85,7 milhões de lavagens no país, canalizando R$ 10,9 milhões para sua própria família, R$ 4,1 milhões para um ex-sócio de seu irmão Matheus Possebon e R$ 2,53 milhões diretamente para a empresa APN Serviços Ltda, de titularidade do pagodeiro Alexandre Pires — suspeito de ceder a estrutura de seu negócio musical para ocultar a origem ilícita do dinheiro do garimpo e do estelionato.
Mais de R$ 38 milhões
No destino final dessa teia bancária, análises do Conselho de Atividades Financeiras (Coaf) e comprovantes apreendidos revelam que o valor sob investigação vinculado ao cantor e à sua empresa supera R$ 38 milhões, divididos entre transferências e repasses milionários efetuados por uma empresa de comércio de aços sem qualquer relação com a atividade artística do cantor. O Relatório de Inteligência Financeira do Coaf revelou que a Metalsur — empresa de comércio de aços que recebeu os dólares de Gerald/MLS — repassou também mais R$ 21,3 milhões para Alexandre Pires e R$ 5, 3 milhões para a APN Serviços Ltda.
Aparência legal
Para dar aparência legal à mineração extraída ilegalmente do território ianomâmi, a mineradora Betser, de propriedade de Christian Costa dos Santos, teria utilizado, segundo as investigações, Permissões de Lavra Garimpeira (PLGs) "esquentadas" no Pará. Imagens de satélite feitas pela PF provaram que na área apontada no papel como origem da produção jamais houve atividade extrativa registrada— apesar de ostentação de notas fiscais relativas a mais de 110 toneladas de cassiterita.
Apreensão em Boa Vista
O nó na operação da quadrilha ocorreu em fevereiro de 2022, quando a PF apreendeu 100 toneladas de minérios estocadas nos galpões da empresa em Boa Vista. Pressionados por um contrato milionário assinado com a suíça Gerald Metals SARL via intermediários americanos, e sem o produto para entregar, o grupo optou pela fraude acintosa: preencheu os contêineres com detritos de pedreira (areia e pó de brita).
A farsa do clã
A farsa que o clã chamou internamente de “operação” ruiu oficialmente em 17 de maio de 2023, quando os primeiros sete contêineres vindos do Brasil desembarcaram no porto de Songkhla, em Tailândia. A suíça multinacional Gerald Metals havia adiantado cerca de US$ 48 milhões — equivalente a 85% do contrato —, exigindo uma concentração mínima de 65% de cassiterita. Quando os técnicos asiáticos abriram os lacres e submeteram o material aos testes laboratoriais, concluíram que a carga continha menos de 1% de minério, sendo composta basicamente por areia e pó de brita.
129 contêineres despachados
Ao todo, segundo as investigações, a rede criminosa despachou 129 contêineres para portos de Tailândia, China e Malásia. Em todos os 109 destinatários abertos pelas autoridades e auditores, o cenário se repetiu de forma idêntica. Notificada pelos suíços, a empresa de logística Adukargo, em Manaus, escancarou a armação e revelou que uma vistoria acompanhada semanas antes por um representante da empresa não passou de um teatro montado por Diego Possebon e Christian Costa dos Santos, e que a carga entregue no pátio amazonense sempre foi declarada no papel como mero detrito de pedreira.
Pires nega envolvimento
Em uma nota oficial, a defesa de Alexandre Pires afirma que ele "não tem e nunca teve qualquer envolvimento com garimpo ou extração de minério, muito menos em área indígena” e que o cantor foi "tomado de surpresa" com os desdobramentos da operação, que “indevidamente envolveu seu nome”. O advogado Luiz Flávio Borges D’Urso acrescentou que Pires nunca cometeu nenhuma ilegalidade, como “já está sendo devidamente demonstrado no curso das investigações”.
Com informações: O Globo