Venezuela: a crônica de uma destruição deliberada

- Por Plínio Vicente (Jornalista)
04/04/2025 07h36 - Atualizado há 17 horas
Venezuela: a crônica de uma destruição deliberada
Ilustração: New York Times

Era uma vez um país muito rico, mas que, junto com uma bênção tinha também uma maldição. A bênção: reservas aparentemente inesgotáveis de petróleo; a maldição: uma elite corrupta que mantinha o povo distante da prosperidade. Cansados, os habitantes renderam-se ao discurso sedutor de um militar populista, que se elegeu presidente prometendo redistribuir as riquezas. Prometeu, mas não cumpriu. Tornou-se um ditador, intervindo no parlamento e no judiciário. Governou até morrer e foi sucedido por um seguidor que mantém as mesmas práticas e é tão corrupto quanto as elites anteriores.

O que escrevi acima parece uma fábula, mas é uma descrição muito resumida de quase três décadas da história venezuelana. Desde 1998, com a eleição do coronel Hugo Chávez, a quem entrevistei na capital venezuelana logo após sua libertação da prisão de Maracaibo em setembro de 1994, o que fiz graças à ajuda de um amigo jornalista, Marcel Garnier, do extinto Diário de Caracas, a economia perdeu o prumo. Havia no povo até então uma grande esperança por melhores dias quando Chávez assumiu o poder com a promessa de transformar a nação em uma potência socialista – ou, em seu jargão, “bolivariana”, em alusão ao general Simon Bolívar, o Libertador. Para chegar a isso, sua plataforma eleitoral se baseava na redistribuição da riqueza e na intervenção estatal na economia.

Inicialmente, usou os vastos recursos petrolíferos do país para financiar programas sociais, o que resultou em melhorias significativas nos indicadores de pobreza e desigualdade. No entanto, a dependência excessiva do petróleo criou vulnerabilidades econômicas, especialmente devido às oscilações de preços internacionais.

Chávez morreu em 2013 aos 58 nos, em Havana, vítima de um câncer, e foi sucedido pelo vice-presidente, o sindicalista Nicolás Maduro, a quem nomeara seu chanceler. Condutor de metrô em Caracas, Maduro, que uma investigação da oposição diz ter ele nascido na Colômbia, filho de mãe venezuelana e pai desconhecido, governou com poderes especiais desde então. Em 2018 foi eleito para um mandato de seis anos em uma eleição contestada, e reeleito recentemente sem transparência em um pleito novamente questionado pela oposição.

Crise política à parte, sua continuidade no cargo manterá os problemas econômicos venezuelanos com o risco de que eles se agravem a um ponto insuportável, até mesmo para seus seguidores, aliados e asseclas.. Isto porque o país vizinho enfrenta uma crise multifacetada que combina desafios políticos, sociais e econômicos. Desde 201, a Venezuela vem mergulhando mais e mais em um ciclo de instabilidade que afeta profundamente a vida de seus cidadãos.

No campo político, a falta de alternância no poder e as acusações de autoritarismo têm gerado tensões constantes e a polarização entre o governo e a oposição faz com que essa instabilidade política reflita-se em uma governança fragilizada, dificultando a implementação de políticas eficazes. Por outro lado, economicamente, a Venezuela sofre com uma hiperinflação devastadora e uma dependência excessiva do petróleo, cuja queda nos preços agravou a crise. A estatização de setores-chave, como eletricidade e telecomunicações, resultou em má gestão e queda de produtividade. Esses fatores contribuíram para o aumento da pobreza, levando milhões de venezuelanos a deixarem o país em busca de melhores condições de vida. Com isso, socialmente a crise humanitária é evidente. A escassez de alimentos e medicamentos, combinada com a emigração em massa, criou um cenário de vulnerabilidade extrema. Mais de cinco milhões de pessoas já abandonaram o país, destacando a gravidade da situação.

A crise na Venezuela é um exemplo de como fatores políticos, econômicos e sociais podem interagir de forma destrutiva, exigindo soluções abrangentes e sustentáveis para reverter esse cenário. Principalmente com o resgate da democracia plena e do estado de Direito, aliados à diminuição da presença militar na estrutura de governança e um forte e aprofundado combate à corrupção. Foram elementos que permitiram aos aliados de Maduro, entre eles oficias graduados das Forças Armadas, a dominarem totalmente o tráfico de drogas, de armas e o controle das exportações de petróleo, levando daí ao assalto continuados aos cofres públicos sem qualquer contestação do principal inquilino do Palácio Miraflores.

Se o madurismo e seus asseclas não forem apeados do poder, a Venezuela se transformará, em mais algum tempo, num Haiti da América do Sul: sem qualquer controle dobre a segurança e a proliferação cada vez maior de gangues, como o Tren de Arágua e milícias, estas armadas pelo próprio governo, que dividirão o país em vários feudos. Uma situação já bem conhecida dos brasileiros, tal como aquela que ocorre nas favelas do Rio de Janeiro e de outras grandes capitais brasileiras.


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