Vencedora do Prêmio Nobel da Paz e referência na luta pela retomada da democracia plena em sua terra natal, a Venezuela, María Corina Machado recebeu o jornal El Tiempo e o Grupo de Diarios América (GDA) na Cidade do Panamá. De lá, ela prepara seu retorno a Caracas, após sete tentativas frustradas, para impulsionar uma transição que, segundo ela, deve surgir de "um grande acordo nacional".
À mesa que negocia essa transição, ela pede três coisas: um novo Conselho Nacional Eleitoral, um novo Tribunal Supremo de Justiça e uma data para as eleições presidenciais, porque "a data da eleição é a data da libertação".
Veja os principais trechos da entrevista:
A senhora está agora geograficamente mais perto de seu país, naquela que será sua oitava tentativa de retornar à Venezuela. Quais condições mudaram e o que a faz pensar que, desta vez, vão permitir que a senhora retorne?
Eu diria que não apenas geograficamente. O afeto, o carinho e a compreensão que existem na sociedade panamenha sobre o que representa a causa pela democracia na Venezuela são enormes, e as pessoas me fazem sentir isso nas ruas por onde passo.
As condições mudam todos os dias, e acredito que o mais importante, em processos como esses, é sempre ouvir e compreender o que as pessoas dizem, desejam e pelo que lutam. E a Venezuela é um país unido, mais do que nunca em sua História, e eu me arriscaria a dizer que talvez mais do que qualquer outra sociedade na América Latina: uma sociedade extremamente coesa, sem diferenças de ordem racial, religiosa, social ou política. Ou seja, um país em que todos queremos a mesma coisa.
E se a senhora não conseguir voltar? Como pode pressionar para que haja eleições no próximo ano?
Bem, em primeiro lugar, isso não se trata de mim. Esta é uma nação que, aliás, tem um terço de seus cidadãos espalhados pelo mundo inteiro, forçados a sair do país de maneira intencional. Trata-se de um país para o qual a data da eleição presidencial representa a data de sua libertação.
Este é um país que já tomou uma decisão. Vimos isso em 22 de outubro de 2023 [primárias da oposição]. Ninguém acreditava que fosse possível. Então, entenda: ninguém vai deter esse processo. A Venezuela será uma nação livre, e cada dia que passa é pior para todos, inclusive para o próprio regime.
E a transição para a democracia na Venezuela é algo que beneficia toda a América Latina e também os Estados Unidos, porque somente com uma Venezuela democrática poderemos alcançar os objetivos de segurança hemisférica, integração comercial, resolver as questões migratórias que geraram tanta pressão nos países vizinhos e, naturalmente, promover a democracia e a estabilidade na região.
O que acontece se não houver eleições em 2027?
Como você explica a uma mãe que não consegue dar comida aos filhos nesta noite que ela precisa ter mais paciência? Como explica a um comerciante, a um produtor que precisa fechar seu negócio porque não tem eletricidade, que precisa esperar?
Esperar o quê? Este é um país que demonstrou estar absolutamente pronto. Veja, provocaram-nos tanto para que caíssemos na tentação da violência, mas, repetidas vezes, a sociedade venezuelana recorreu a mecanismos democráticos e cívicos, dando um exemplo impressionante ao mundo inteiro.
Para os países vizinhos, é importante entender que a única maneira de alcançarmos a estabilidade na região, interrompermos a pressão migratória e, ao contrário, fazermos com que mais venezuelanos voltem ao seu país é ter a certeza de que haverá um futuro democrático.
E isso, naturalmente, também interessa aos Estados Unidos, porque não haverá investimentos maciços, como os que a Venezuela exige, se não houver instituições democráticas sob o Estado de Direito.
Delcy Rodríguez vem conquistando cada vez mais espaço de interlocução no governo venezuelano e no cenário internacional. Se a senhora conseguir voltar, como isso pode unir uma oposição que também parece fragmentada?
Acredito que a oposição venezuelana nunca esteve tão unida quanto hoje. Então, que alguns atores tenham a intenção de seduzir, desviar ou manipular determinadas figuras ou facções… Pelo amor de Deus, isso sempre aconteceu ao longo da história, em todas as partes do mundo. Estamos enfrentando uma estrutura criminosa de caráter mafioso. Maduro saiu, mas a estrutura continua ali.
Que margem real a senhora tem para influenciar as decisões sobre a realização urgente de eleições?
Adoro essa pergunta, porque, quando observamos a história, as transições costumam ser acordos entre elites: alguns líderes, alguns partidos de um mesmo país, alguns atores internacionais. Como nós, venezuelanos, estamos sempre inovando, propusemos que seja feita uma transição que venha das pessoas e seja construída com as pessoas.
E uma das razões pelas quais vou voltar, assim como um dos objetivos do meu retorno, é transformar um grande acordo nacional em um acordo que surja das entranhas do país; fazer com que tudo o que preparamos — porque temos as propostas, os planos, as equipes; ou seja, estamos prontos para trabalhar imediatamente — se transforme na nova discussão nacional, em um debate nas cozinhas, nas escolas, nas fábricas, nos campos, em toda a sociedade venezuelana.
Que mensagem a senhora envia à mesa de negociações?
Que cumpram a palavra. Eles receberam uma tarefa: nomear um Conselho Nacional Eleitoral com base na Constituição. Não se trata de distribuir cotas, nem de colocar um de um lado e outro do outro. A Constituição venezuelana é claríssima: pessoas íntegras, sem qualquer vínculo político. O mesmo vale para o Tribunal Supremo de Justiça. E que estabeleçam uma data para as eleições. É só isso que precisam fazer, e rapidamente.
Qual é a sua avaliação de como o governo do presidente Trump conduziu a situação da Venezuela após a saída de Maduro?
Não estaríamos hoje a caminho de uma transição se o presidente Trump não tivesse tomado a decisão histórica de levar Maduro à Justiça. Durante anos, alertamos sobre o que estava sendo construído na Venezuela. Não se trata de uma ditadura convencional: é uma estrutura criminosa que entregou nosso território como santuário não apenas à guerrilha do ELN (Exército de Libertação Nacional), às Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e às suas dissidências, mas também a grupos terroristas islâmicos, redes de exploração mineral, de tráfico de pessoas e de todo tipo de atividade ilegal, que provocaram uma devastação do nosso meio ambiente e, naturalmente, de nossas crianças e famílias.
Então, nós, venezuelanos, fizemos tudo para demonstrar nossa vocação democrática: unimos um país, estabelecemos um mandato e fornecemos a base legal e moral para que uma ação dessa natureza pudesse ocorrer. Agora, é preciso avançar em um processo que consolide todas essas expectativas e oportunidades que estão surgindo, porque, no fim das contas, é absolutamente irreal pensar que aqueles que criaram esse caos são capazes de estabelecer as bases para a recuperação do país. Isso não vai acontecer. Ninguém confia em quem saqueou, torturou e espoliou a Venezuela. E Delcy Rodríguez é diretamente responsável por todo esse processo.