A líder da oposição venezuelana e vencedora do Prêmio Nobel da Paz, María Corina Machado, retornou à Venezuela neste domingo, após quase dez meses no exílio, em meio a crescentes dúvidas sobre o futuro democrático do país e o papel dos Estados Unidos na transição política. Em Washington, o presidente americano, Donald Trump, afirmou desconhecer os detalhes do retorno, mas voltou a elogiar a opositora:
— Não sei nada sobre isso, mas acho que ela é uma mulher muito simpática. Ela me deu seu Prêmio Nobel. Como eu poderia dizer qualquer outra coisa? Espero que ela esteja segura. Ela é uma mulher muito simpática. Mas estamos indo muito bem na Venezuela — disse.
Esta foi a primeira aparição de María Corina em território venezuelano desde dezembro, semanas antes da invasão americana que terminou com a deposição do então presidente Nicolás Maduro, em janeiro, e abriu caminho para a ascensão de sua vice, Delcy Rodríguez. Desde então, María Corina tem pressionado pela convocação de novas eleições, enquanto o governo Trump prioriza a estabilização econômica do país.
A venezuelana anunciou sua chegada em uma publicação no X com uma breve mensagem: “Estou aqui. Com vocês”, escreveu. Pouco depois, seu partido divulgou imagens de María Corina em uma igreja no estado de Lara, no oeste da Venezuela, confirmando seu retorno. Nas gravações, ela aparece entrando no templo sob aplausos de dezenas de pessoas, que se aproximaram para abraçá-la, apertar sua mão e tirar fotos.
— María! María! — gritou uma pessoa, enquanto outra exclamava: — Bem-vinda à Venezuela!
A chegada também foi celebrada por Edmundo González, que substituiu María Corina como candidato da oposição nas eleições presidenciais de 2024, após o governo de Maduro a impedir de disputar o pleito. No X, ele confirmou a presença da líder no país e disse que estaria ao lado dela “em breve”: “Hoje é um dia muito importante para os venezuelanos. Nossa voz soberana retorna com ela para liderar e orientar este processo!”.
‘Um passo importante’
Em nota, David Smolansky, porta-voz de María Corina, classificou a volta como “um passo importante rumo a uma transição democrática e à realização de eleições presidenciais livres, justas e verificáveis em um futuro próximo”. Segundo ele, a líder oposicionista retorna para acompanhar os venezuelanos na busca por liberdade, democracia e justiça e contribuir para uma transição política pacífica.
“Agradecemos ao presidente Donald Trump, ao secretário de Estado Marco Rubio, ao governo dos Estados Unidos, ao Congresso e aos governos aliados por sua liderança e apoio contínuos”, escreveu.
Apesar da declaração de Trump, o retorno de María Corina ocorre em um momento de tensão entre a líder venezuelana e a Casa Branca. Após a queda de Maduro, Trump apoiou Delcy, aliada de longa data do ex-presidente, em vez de entregar o comando do país à oposição — decisão que surpreendeu muitos na Venezuela. Maduro foi levado a Nova York, onde responde a acusações relacionadas ao tráfico de drogas, que nega.
Novas eleições
Após a operação americana, a mais alta corte venezuelana autorizou Delcy a exercer o cargo por até 90 dias, com a possibilidade de prorrogação por outros 90 dias mediante aprovação da Assembleia Nacional. O Parlamento, controlado pelo partido governista, nunca votou a extensão de seu mandato, mas a líder interina permaneceu no poder.
María Corina e seus aliados exigem que o governo estabeleça uma data para a realização de novas eleições presidenciais, mas Delcy não tomou nenhuma medida nesse sentido. Em fala na Assembleia Geral da ONU em setembro, a presidente interina afirmou que caberá aos venezuelanos determinar o “momento certo” para o próximo pleito.
O governo americano, por sua vez, tem defendido que a recuperação econômica e a reconstrução das instituições venezuelanas devem preceder a realização de eleições. Rubio argumentou que o país precisa estabilizar sua economia e reformar estrutuas como o Judiciário e o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) antes uma nova votação, embora tenha dito que María Corina tinha “todo o direito” de retornar ao país.
Em outubro de 2023, María Corina venceu as primárias da oposição e se preparava para enfrentar Maduro no pleito de 2024, mas foi impedida pelo governo de concorrer. Edmundo González assumiu sua candidatura e, segundo evidências consideradas confiáveis, derrotou o então presidente por uma margem superior a dois votos para cada um recebido por Maduro. Ainda assim, o CNE declarou Maduro vencedor.
Repressão no país
O período anterior e posterior à votação foi marcado por uma ampla campanha de repressão, incluindo desaparecimentos forçados, tortura e outras violações dos direitos humanos. Mais de 2 mil pessoas, entre elas mesários, foram detidas nos dias seguintes à eleição. María Corina, que lidera a oposição há três anos, passou boa parte desse período escondida em território venezuelano para evitar a prisão. Em janeiro de 2025, chegou a ser brevemente detida após participar de um protesto contra a cerimônia de posse planejada por Maduro.
Depois do episódio, a líder oposicionista permaneceu na clandestinidade por 11 meses, até deixar secretamente a Venezuela e reaparecer na Noruega, em dezembro de 2025, para receber o Prêmio Nobel da Paz, concedido por sua resistência pacífica ao governo de Maduro. Desde então, prometeu repetidamente voltar ao país para pressionar por eleições. Em entrevista recente ao New York Times, afirmou que seu retorno aconteceria “mais cedo do que vocês imaginam”.
Segundo seu partido, María Corina fez sete tentativas frustradas de regressar à Venezuela. Em uma delas, pretendia viajar em uma embarcação fretada, mas o operador cancelou a travessia, alegando que o barco não tinha condições de navegação. Em outra ocasião, sua equipe tentou organizar um voo até a ilha caribenha de Curaçao, de onde a opositora seguiria de lancha até o território venezuelano, mas o avião não recebeu autorização para pousar.
Ativistas da oposição acusaram o governo venezuelano de bloquear o retorno de María Corina, alegação negada pelas autoridades do país. Também surgiram questionamentos sobre uma possível participação do governo Trump nas tentativas de impedir sua volta. Integrantes da administração americana negaram qualquer interferência, embora tenham reconhecido que, em algumas ocasiões, aconselharam a opositora a permanecer fora da Venezuela.