Lideranças indígenas exigem retirada de PMs de Roraima da reserva Raposa Serra do Sol.

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O Conselho Indígena de Roraima (CIR) informa que nesta quinta-feira (18) foi realizada uma reunião na comunidade Tabatinga, na Terra Indígena Raposa Serra do Sol (TIRSS), com a presença de cerca de 300 lideranças indígenas e representantes do MPF/RR, PF/RR, e Funai/RR. Na ocasião, a comunidade entregou uma carta pedindo a imediata saída dos PMs da Terra Indígena e relatou às autoridades federais como aconteceu o ataque policial na última terça-feira (16), que deixou 12 indígenas feridos com munições letais e não-letais.

Reunião de indígenas e autoridades na comunidade Tabatinga.

A reunião em Tabatinga foi realizada por solicitação das comunidades. Durante a reunião,  15 viaturas da PM e do Corpo de Bombeiros ficaram no entorno da comunidade. Os agentes só deixaram o local após lideranças pedirem que o procurador do MPF, dois delegados da PF e dois representantes da Funai presentes mediassem a retirada da tropa do entorno da comunidade e de dentro da TI. Nenhum integrante da PM ou do governo estadual participou da reunião.

Sobre o ataque, as lideranças da comunidade relataram que na tarde de 16/11, cerca de 20 policiais militares em cinco viaturas, entre PMs de Uiramutã e equipes enviadas de Boa Vista, foram para Tabatinga no intuito de cumprir uma decisão da Justiça de Roraima de agosto deste ano que determinou retirada dos postos de vigilância da RR-319 (Transarrozeira, próximo à ponte do rio Viruaqui), e RR-171 (próximo a ponte do rio Urucuri). O posto de vigilância de Tabatinga, é uma iniciativa das 76 comunidades da região Serras e fica localizado em uma vicinal que dá acesso somente a comunidades indígenas. O controle visa principalmente coibir a entrada de materiais que abastecem atividades ilegais e danosas à vida das comunidades indígenas, em especial o garimpo, o tráfico de drogas, além da venda de bebidas alcoólicas, etc. 

Segundo as lideranças de Tabatinga, uma equipe da PM de Uiramutã havia ido à comunidade no último final de semana para tentar desativar o posto. Na noite de segunda-feira (15/11), um morador de Água Fria também passou por Tabatinga, quando forçou o carro contra a corrente colocada para controlar o fluxo de veículos, e acusou os indígenas de impedirem sua passagem e causarem danos ao seu carro, o que a comunidade nega. Informações sobre o caso desse suposto impedimento da passagem e os danos no carro foram repassadas à PM de Uiramutã que retornou à Tabatinga em 16/11 com o reforço policial enviado de Boa Vista para desativar o posto de fiscalização.

A comunidade relatou que por volta das 9h de 16/11, PMs  estiveram na comunidade e já agiram com truculência com as pessoas que estavam no posto de vigilância. Por volta das 16h30, eles retornaram. Os relatos são de que após se aproximarem de Tabatinga, eles dispararam uma primeira bomba de gás contra mulheres e crianças, apesar da corrente do posto de fiscalização já estar arriada, permitindo o livre trânsito dos policiais.  

Em sequência, os PMs começaram a disparar em direção às pessoas e casas. Cerca de 80 indígenas, sendo moradores e lideranças que estavam no posto de Tabatinga, se refugiaram nas áreas vizinhas. Na correria, mais pessoas se feriram, e crianças se perderam, só sendo encontradas horas depois do ataque, bastante assustadas. Um vídeo que mostra o ataque a uma das casas foi amplamente divulgado na imprensa local e nacional.

Segundo os relatos, os PMs ficaram cerca de 1h30 na comunidade, invadiram duas residências, jogaram bombas nos cômodos, e recolheram facas, arcos e flechas. Eles também invadiram a escola e o posto de saúde da comunidade, onde destruíram painel solar, descartaram remédios, e apreenderam equipamento de radiofonia da Sesai. Também levaram objetos pessoais dos moradores, e recolheram parte das munições e bombas utilizadas no ataque.

Os moradores também disseram que os PMs demonstraram ter ordens claras para perseguir as lideranças da comunidade. Dos 12 indígenas feridos pelos tiros, pelo menos dois foram atingidos com arma letal. O tuxaua de Tabatinga foi baleado na perna esquerda, na altura do joelho. Seu irmão foi baleado no lado direito do peito, sendo que a bala ficou alojada em seu corpo. Ele foi submetido a uma cirurgia na madrugada de 17/11 no Hospital Geral de Roraima, em Boa Vista, para a retirada do projétil. 

Ainda segundo a comunidade, nas noites de 16 e 17/11, viaturas policiais ficaram passando no entorno de Tabatinga como forma de intimidação. Além disso, nessas duas noites, quatro indígenas que transitavam pela região foram agredidos pela PM. Dois deles foram levados para a sede de Uiramutã, a cerca de 15 km de Tabatinga, só sendo liberados após a ida de lideranças ao destacamento policial no município. A casa de uma indígena da região também foi invadida e um jovem foi agredido por PMs a coronhadas. 

Em Tabatinga, os moradores recolheram diversas cápsulas deflagradas, parte delas de borracha, e também de fuzil e pistola ponto 40, além de bombas de efeito moral. Na quinta, balas de munição letal também foram recolhidas na comunidade e entregues à Polícia Federal para perícia. Até esta sexta-feira (19), a comunidade relatava insegurança e medo de um novo ataque de forças policiais, e pedia a investigação do caso. FacebookWhatsAppTwitterFlipboardSMSBlogger.

Informações e fotos: Conselho Indigenista de Roraima

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By peronico

Expedito Perônico, jornalista e colunista de política. Este blog cobre os bastidores do poder em Roraima e em Brasília. Já atuei nos principais veículos de comunicação de Roraima.

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