Titular no Flamengo, roraimense Thiago Maia viu mãe vencer o câncer e morou em motel por sonho no futebol.

Compartilhe nosso conteúdo!

Entrevista – Jornal O Globo.

Thiago Maia sempre abriu portas na vida. Fosse em Boa Vista, Roraima, onde nasceu, ou no motel onde morou aos 12 anos pela falta de dinheiro, em São Paulo. Vindo de família humilde, não podia se dar ao luxo de desperdiçar oportunidades. Nesta quarta-feira, mais uma aparece para o volante. Devido à suspensão de Willian Arão, punido com dois jogos pela Conmebol, ele será titular do Flamengo contra o Barcelona, às 21h30, no Maracanã, pela Libertadores. 

No Ninho do Urubu, o camisa 33 é conhecido pelo bom humor e sorriso fácil, mas a infância o lembra de dar valor ao que conquistou. Foi vendo a mãe, Vanda, vencer um câncer que ele tira forças para superar as batalhas dentro e fora de campo. A inspiração familiar o motiva a levar o Flamengo à segunda vitória na fase de grupos da Libertadores.

— Não entendia na época. Lembro dela raspando o cabelo, sobrancelha, ficando totalmente careca por causa do câncer. Quando criança, você pensa que é só uma doença. Quando cresce, vê que ela poderia ter morrido. Teve câncer e pedra no rim. Eu a via chorando com dor, sem conseguir dormir. Ela dizia que eu tinha vergonha de andar com ela porque tinha que estar de touca — disse o volante ao GLOBO.

Thiago Maia também recordou das noites dormidas em um motel quando tinha 12 anos, estava na base do São Caetano e dividia o quarto com um companheiro do clube:

— Não é uma sensação boa. Não sei como é hoje, nunca mais fui (risos). Na época era mais em conta. Lembro até hoje porque foi lá onde fiz o meu primeiro bigode. Hoje, a gente dá risada, mas ficamos constrangidos. Não poderíamos sair do quarto de jeito nenhum. Ficava eu, meu amigo e os pais dele. É bem estranho, mas é história para contar.

O que a Dona Vanda representa para você?

Ela significa tudo. Minha mãe largou os estudos, família, amigos, para viver a minha vida. A Bíblia fala que temos que honrar mãe e pai, ele também sempre lutou pelos meus direitos. Para as coisas que dava para comprar, o melhor que poderia dar. Tenho pais maravilhosos que souberam me amar e me educar.

Agora pode comprar todos os cachorros-quentes que quiser, não?

Cara, lembro como se fosse hoje. Pegava ônibus, ia para o metrô [do Brás, em São Paulo, quando estava na base do Santos], depois pegava um trem. Nessa intercalada, sentia o cheiro de cachorro-quente. Pedia sempre para a minha mãe, que não tinha condição de comprar. Isso marcou mais nela, porque ficava triste, do que em mim.

Como é a sua relação com seu pai?

Meu pai é meu amigo, meu irmão. Ele tinha que sair de casa escondido porque senão eu chorava. É um cara que sempre lutou pelos meus direitos e abraçou o meu sonho. Eu tive a oportunidade de ter dois pais que me abraçaram e hoje deu certo.

Verdade que tinha que esconder a bicicleta dele quando criança?

Tinha. Eu dava uma enrolada neles, dizia que tinha que buscar a bola que eu mesmo chutava para fora de casa e pegava a bicicleta para ir jogar futebol. Depois chegava com o pé cheio de poeira e tomava bronca. Eu sempre gostei muito de futebol, teve até um episódio na escola que a professora dizia que “eu não queria estudar, só jogar futebol”.

As recusas no Corinthians o fizeram pensar em desistir?

Fiz três testes no Corinthians, no terceiro falaram que eu estava abaixo do nível. Depois do primeiro ‘não’, queremos desistir. Voltar para o conforto da família. Liguei para os meus pais e disse que queria voltar. Meu pai me incentivou a ficar. Tudo que a gente vive, a gente pensa que nunca vai conseguir. Hoje, olho para trás e penso que valeu a pena.

Como é quase perder o movimento das pernas?

Cara, já joguei com pé machucado, unha cortada… Mas contra o Palmeiras [pelo Santos, no Campeonato Paulista de 2015], fui cabecear a bola e acabei desmaiando. Perdi por uns três minutos os movimentos das pernas. Lembro que a ambulância estava muito rápido e falei para o motorista “que só não estava sentindo as pernas, não estava morto”. Minha mãe estava em Diadema [São Paulo], mas quando acordei ela estava no meu quarto.

Como era para ver os jogos do Flamengo na França?

Não existe fuso-horário quando o Flamengo joga (risos). Eu tinha um aplicativo que mostrava os jogos do Brasil. Tinha um limite de horário, quando dava 3h da manha eu ia dormir. Depois acordava para ver o resultado.

Teve alguma ‘cavada’ nos vídeos antes de vir para o Flamengo?

Os vídeos não tiveram essa intenção. O primeiro, no Maracanã, na final do Carioca, eu apostei com o Thiago Mendes e o Luiz Araújo que iria postar e não estava nem aí para o que iria acontecer, se ia ser tirado do clube. Na Libertadores, também. Mas stories do jogo do Flamengo, respondendo torcedor. Não sou hipócrita de dizer que não. Uma cavadinha faz bem. Deu certo.

E os memes?

Estourou mesmo quando o Pedro veio da Itália e fez escala na França. Falaram que eu estava em cima do avião, na mala do Pedro. Tinha um com um cara segurando a asa do avião e falando que era eu vindo para o Brasil. (risos)

Como é disputar a titularidade com o Willian Arão?

Não tem muita coisa diferente. O Arão é um cara inteligente, tem uma boa bola área, não sou tão bom. Ele faz gol, mais presença de área. Os dois são bons, estão jogando no Flamengo.

Ainda sonha em disputar a Olimpíada de Tóquio?

Sem dúvida, manter esse título seria mais um feito histórico na minha vida. Era a única modalidade que não tínhamos medalha. Poder defender, seria uma honra.

Como avalia esse ‘projeto’ do Flamengo?

Teve o momento do Santos, agora é o do Flamengo, Jogador vive de título, vai ser lembrado pelo que? Tem que ir para um clube com projeto de ser campeão. Todo jogador quer vir para o Flamengo para ser campeão, sim.

Conselhos de Jorge Jesus?

É um cara que passa bastante confiança para o jogador. Deixa muito a vontade dentro de campo. Tranquilo, faz aquilo que você sabe. Ele é muito engraçado, fora de campo é um cara que brinca. As palavras que ele usa, para eles é muito normal sair alguns xingamentos e acaba sendo engraçado para a gente. Ele é um cara divertido, são todos muito gente boa. 

CONTATOS DO AUTOR

www.peronico.com.br – emails: peronico.27@gmail.com / blogdoperonico@gmail.com / expeditoperonico@gmail.com Facebook: Peronnico Expedito – Blog do Expedito Peronnico.

Compartilhe nosso conteúdo!
By peronico

Expedito Perônico, jornalista e colunista de política. Este blog cobre os bastidores do poder em Roraima e em Brasília. Já atuei nos principais veículos de comunicação de Roraima.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Related Posts